#163 – Emergências: uma série sobre Governança, Risco e Comunicação (Ep. 4)
abr 6, 2023

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Neste episódio a Fabíola Junqueira (@fabiolamjunqueira) e a Flora Villas (@flora.villas) falam sobre como percebemos fenômenos naturais que deflagram desastres socialmente construídos.

Elas conversaram com a professora Gabriela Di Giulio, coordenadora do grupo CIRIS, que investiga Governança, Riscos e Comunicação no Brasil, além dos pesquisadores Jefferson Picanço e Claudia Comaru sobre desastres.

Este episódio faz parte de uma série que fala sobre os trabalhos do grupo formado por pesquisadoras e pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

A divulgação científica destes trabalhos é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. 

Roteiro

Fabíola: Olá, eu sou Fabíola Junqueira e este é o quarto episódio de uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de pesquisar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. 

Flora: Olá, eu sou Flora Villas e ao longo dos episódios você vai ouvir pesquisadores e pesquisadoras do grupo CIRIS, que fazem parte dos programas de mestrado e doutorado do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, além de outros cientistas e especialistas convidados.

Fabíola: Neste episódio vamos falar sobre Desastres. Mas não é qualquer tipo de desastre. Vamos falar sobre desastres relacionados aos fenômenos naturais cíclicos. E sobre como podemos compreender esses fenômenos a partir de uma perspectiva socioambiental, ela envolve conceitos como: saúde global, saúde planetária e até a subjetividade de profissionais bombeiros que lidam com o resgate e salvamento de vida quando ocorrem os desastres.

Fabíola: Regiões que em alguns dias recebem a quantidade de chuva prevista para meses. Cidades conhecidas pela presença das águas e por canais que agora enfrentam secas. Temperaturas extremas que afetam plantações e criações. Tremores de terras, alteração migratória de aves, surtos de doenças infectocontagiosas. Estes são alguns dos sintomas observados em decorrência das alterações climáticas pelas quais estamos passando. E que, pela severidade de seus efeitos, têm sido considerado por muitos autores, uma Emergência Climática. 

Flora: De acordo com a Organização Meteorológica Mundial esses fenômenos mostram claramente o impacto da presença de gases de efeito estufa no planeta. Ações para reduzir o aquecimento global e fortalecer a adaptação à nova realidade são urgentes. 

Fabíola: Além disso, é urgente o debate, a pesquisa, a reflexão e a conscientização de que o planeta em que vivemos é um ser vivo que responde à forma como nos relacionamos com ele. A professora do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e pesquisadora do CIRIS, Gabriela Di Giulio, conversou com a gente sobre essa Emergência Climática.

Gabriela: A crise climática está diretamente associada aos efeitos da chamada exploração capitalista predatória dos recursos naturais e caracterizam as práticas hegemônicas ao longo do século 20, mas com muito mais força a partir da década de 1950 até os dias atuais. Essa forma da gente explorar os recursos naturais associado a esse crescimento populacional, os efeitos do crescimento populacional, urbanização desorganizada, acelerada, o próprio processo de globalização continuam sendo capazes de alterar características naturais de maneira bastante decisiva modificando o funcionamento do sistema terrestre de forma bastante perigosa para sobrevivência humana. E qualidade de vida para a maior parte das pessoas. 

Flora: Notícias sobre as consequências de eventos climáticos extremos são cada vez mais frequentes nos jornais. Também já tratamos disso em alguns episódios do Oxigênio, como no anterior a este, ouça lá. Desde a década de 1980, a comunidade científica tem se empenhado em pesquisar sobre o fenômeno das mudanças climáticas, além de formas de reduzir os efeitos destas mudanças e sobre como podemos nos adaptar à nova realidade de fenômenos extremos cada vez mais intensos. 

Gabriela:  Então essa crise climática expõe uma necessidade urgente do que a gente chama de uma redefinição qualitativa, da estrutura das prioridades políticas econômicas da sociedade. Na tentativa de reverter esse modelo predatório de esfoliação da natureza e dessa necessidade de postular, de forma bastante urgente, um modelo baseado na solidariedade, no respeito com a diversidade biológica. Mas ainda que a compreensão da comunidade científica sobre as mudanças climáticas envolva um longo processo de aprendizado coletivo, com o acúmulo de dados observados, construção de teorias, de modelos, nesse sentido de sintetizar conhecimento, de avançar em estudos empíricos para testar arcabouços teóricos, metodológicos, analíticos, a gente pode também entender que o fenômeno das mudanças climáticas ele adentra com mais força na agenda política somente nas últimas décadas, né? E se a gente puder fazer assim uma rápida síntese desses marcos históricos que foram fundamentais para que o tema, o fenômeno, essa crise das mudanças climáticas de fato adentrasse com força na opinião pública, na agenda política, a gente poderia situar a própria conformação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o IPCC no final da década de 80. Sobretudo os primeiros esforços, né? É talvez aí a divulgação do primeiro relatório de avaliação assinado pelos cientistas já na década de 90 e que certamente né a partir da divulgação dos outros relatórios dos outros documentos produzidos pelo IPCC tem tido bastante peso para que a questão climática ganhe a atenção pública.

Fabíola: O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, o IPCC, existe desde 1988 e o primeiro relatório foi divulgado em 1990. De lá para cá muitos cientistas renomados participaram de estudos e pesquisas sobre o fenômeno das mudanças climáticas. No primeiro semestre de 2022 foi divulgado o sexto relatório com um compilado das principais pesquisas produzidas até então. O episódio número 153 e 161 do Oxigênio tratam desse tema. Vale a pena conferir!

Flora: Os desafios que estamos enfrentando em decorrência destas mudanças vão além dos fenômenos naturais geológicos. Os períodos de crise geralmente expõem temas sensíveis muitas vezes negligenciados por políticas públicas. 

Fabíola: A Gabriela contou um pouco sobre como a perspectiva da Saúde Global e Planetária abarca, de forma crítica, questões sociais que ultrapassam fronteiras geográficas e afetam nosso cotidiano.        

Gabriela: A gente pode pensar que a saúde Global inclui conhecimentos, práticas, pesquisas sobre as questões e problemas ditos extra territoriais, porque ultrapassam as fronteiras geográficas nacionais, mas são problemas que têm enormes impactos nas nossas vidas cotidianas. Então, nesse sentido, a Saúde Global tenta analisar os determinantes sociais e ambientais desses problemas, as respostas políticas, as soluções que necessitam de intervenções e acordos entre diferentes partes, em diferentes níveis. Já a Saúde Planetária assume que os problemas de saúde e a definição de políticas públicas para enfrentá-los não podem, não devem estar dissociados daquilo que a gente chama como emergência ecológica. Nesse sentido ela faz um chamamento importante por uma consciência mais ampla, mais profunda de como esses problemas estão interconectados e como eles afetam a saúde global por diversas dimensões. A Saúde Planetária coloca, no meu entendimento, desafios e demandas que são tão urgentes e tão abrangentes quanto os da Saúde Global. Em comum eu diria que ambas abordagens, ambos conceitos de Saúde Planetária e  Saúde Global precisam lidar diretamente com desafios críticos que se colocam nesse século 21, né? A gente pode pensar desde a distribuição desigual de doenças ao redor do mundo, os impactos das mudanças ambientais globais na saúde humana, a questão da mitigação e de adaptação às mudanças climáticas, a necessidade urgente de revisão dos padrões de consumo, de desperdício. Mas também de outras questões que são muito críticas nesse tempo social que a gente vive, como crescimento da xenofobia, do racismo, da misoginia, da transfobia, as tensões econômicas, políticas, sociais, em relação às políticas, às instituições, aos sistemas.

Então a gente tem feito todo um esforço de situar as causas dessas crises como problemas estruturais. Ou seja, que precisam ser contextualizados, que precisam ser vinculados à interferência humana no ecossistema planetário. A gente tem feito um esforço de situar as complexas interações também entre ciência, sociedade e política no sentido de aprofundar a reflexão sobre as interações entre conhecimento científico, outros tipos de conhecimento, normas políticas, marcos regulatórios, ações coletivas, perspectivas individuais inclusive, sempre buscando lançar a luz a necessidade de uma reflexão provocativa para pensar o que pode ser na prática um compromisso real com a sustentabilidade.

Flora: Pensando nessa perspectiva mais ampla de compreender as mudanças pelas quais estamos atravessando perguntamos para a Gabriela como podemos entender os desastres, já que este é um dos temas de investigação do CIRIS. Como podemos lidar com estes eventos que antes eram vistos como acidentes, como movimentos imprevisíveis da natureza? 

Gabriela: Quando se trata de desastre a ênfase recai quase sempre a uma abordagem mais geográfica que vai dar peso, bastante peso, aos mecanismos físicos, à distribuição temporal espacial, à dinâmica de eclosão dos eventos físicos e que vai adotar então modelos de mensuração quantitativa sobre probabilidade de ocorrência desses eventos perigosos e das suas causas. Na perspectiva da Ciências Sociais, humanas, e aqui é onde a gente se situa, né os nossos estudos sobre a percepção, comunicação e governança de risco, e governança de ciência e tecnologia, os desastres eles são compreendidos como resultados das formas como ecossistemas e grupos sociais se relacionam entre si, né? Como um tipo específico de um problema social na verdade, que vai revelar modos de conflito, questões relacionadas à coesão social que afloram em contextos de crise.

Os desastres seriam então momentos que tornariam visíveis, conexões bastante relevantes que marcam também o nosso entendimento sobre essas crises, sobretudo conexões entre justiça social, em justiças já precedentes e àqueles grupos que estão mais expostos aos perigos. Então nesse sentido chamaria atenção para as potencialidades dos estudos que se debruçam sobre percepção, comunicação, governança de risco, de ciência e tecnologia, sobretudo porque esses estudos buscam compreender as causas de um desastre como problemas estruturais e portanto essas causas elas precisam ser contextualizadas, esses estudos buscam lançar luz ao processo de vulnerabilização social que historicamente obstrui recursos daqueles que estão numa situação mais persistente de fragilização.

Os nossos estudos buscam explicitar os processos sociais que existem, as negligências presentes, as invisibilidades, apatia, inação, incompetência. Ao mesmo tempo buscam dar visibilidade aos fatores socioculturais que são importantes para a gente compreender as resistências, as controvérsias das negociações, identificar e analisar como esses fatores também moldam as percepções dos indivíduos e dos grupos sociais em relação àquele fato, àquele acontecimento, ou risco. Investigar inclusive como os indivíduos respondem a essas situações a esses riscos, que fatores interferem nas suas respostas, como eles respondem às próprias dimensões sociais nessas situações de vida real, né? Como eles se sentem afetados por esses riscos, como eles imaginam enfrentá-los. Acho que são pontos bastante relevantes nos nossos estudos.

Jefferson: Nos últimos 150 anos a terra vem experimentando um aquecimento. E aí nos últimos 50 anos, últimos 30 anos esse aquecimento tá muito acelerado, muito acelerado mesmo. E com isso algumas questões sobre os desastres começaram a acender luzes amarelas, depois luzes vermelhas, depois não sei qual é a luz depois da luz vermelha, sobre isso. Porque os desastres são relacionados com processos, alguns processos são naturais, mas eles só viram desastre quando eles estão acompanhados por seres humanos ou por coisas que seres humanos deixam na paisagem, né? Então uma atividade vulcânica ela em si, ela é um fenômeno natural como um outro qualquer, agora se tem uma uma atividade humana, você tem gente morando perto do vulcão, se tem uma estrada que passa por ali, se tem uma plantação que passa por ali, isso na medida em que afeta os seres humanos isso passa a ser um desastre, né? Então no começo a gente se referia a desastre como uma coisa… era um evento, do ponto de vista, bom eu sou geólogo, né? então o povo que é da geologia, o pessoal fala muito de Riscos Geológicos. Quando se fala em risco, o risco é uma probabilidade, né? Tem uma probabilidade envolvida aí para você trabalhar. Então esses desastres eram desastres naturais, provocados por coisas naturais, pra diferenciar dos outros desastres, por exemplo uma grande fome provocada por uma política infeliz, uma guerra, todas essas outras coisas aí. Só que com o passar do tempo se percebeu que você não pode mais falar desastre no planeta Terra, desastre natural e dizer assim: “ah, isso não afetou ninguém”. 

Flora: Este que você acabou de ouvir é o professor Jefferson Picanço, com ele retornamos ao ponto central do episódio: desastres. O Jefferson é geólogo, professor da Unicamp e pesquisador nas áreas de política e gestão dos recursos naturais. Ele pesquisa riscos geológico-geotécnicos e tem atuado em situações de crises e desastres no Brasil. 

Fabíola: Para o professor não há desastre que não afete alguém. Os fenômenos naturais estão ligados às ações humanas no planeta e sofrem mudanças cada vez mais intensas na medida em que ignoramos tal relação. Em julho de 2018 o professor Jefferson publicou um ensaio na revista ClimaCom discutindo a questão do tempo geológico e a questão do Antropoceno. O Yama Chiodi da equipe aqui do Oxigênio  leu um trecho da apresentação do trabalho pra gente.

Vitor Chiodi: “Uma breve história do tempo geológico: a questão do Antropoceno”] A noção de que a humanidade é um importante agente geológico sempre teve destaque nas discussões sobre as mudanças climáticas ou sobre o aquecimento global. O conceito de tempo geológico surge a partir de uma lenta discussão em que a noção de um “tempo longo”, ou “natural” se estabelece em relação a um “tempo curto” da narrativa mosaica. Diversos nomes já foram propostos para o período em que a humanidade surge e se estabelece no planeta. Os nomes Holoceno e Recente, foram propostos já no século XIX para estabelecer esta diferença. No entanto, a proposição do Antropoceno como o período em que a ação da humanidade se torna um agente geológico importante ganha cada vez mais novos adeptos. Ainda que não seja consenso, a discussão sobre o Antropoceno é importante pois coloca novas questões na discussão sobre o papel da humanidade e sua ação no futuro próximo do Planeta.

Flora: Para o professor não faz mais sentido considerar tais fenômenos como naturais. Ele deixa claro que muitos desastres são construídos.

Jefferson: Então não faz sentido a gente falar em desastre natural. Hoje em dia a gente procura falar desastre socioambiental, né? E mesmo porque já que o desastre tem o componente ou o componente humano faz parte dele, o desastre pode muito bem ser construído. Né? Ele é construído socialmente. Por que por exemplo, é bom uma hora aqui em Campinas, mas São Paulo é a mesma coisa, quando você tem uma chuva muito forte, como é que a gente teve esses dias, né? Quem que sofre mais? São as populações mais vulneráveis. Tem aí a questão da vulnerabilidade, né? Então são as pessoas que socialmente são mais vulnerabilizadas. Então existe uma assimetria aí, né?

Fabíola: Na nossa conversa, o professor relembrou eventos como as chuvas na região de Blumenau em Santa Catarina, que deixaram pessoas desabrigadas por mais de 5 anos. As chuvas na região de Petrópolis no Rio de Janeiro, no sul da Bahia e no Guarujá, região litorânea de São Paulo, onde houve deslizamentos de terra, destruição de casas e intenso trabalho da defesa civil para recuperação de desaparecidos. Além do rompimento da barragem em Brumadinho que deixou um rastro de rejeitos no solo além de intenso sofrimento social. 

Jefferson: Se você for para Minas Gerais hoje, para Brumadinho, por exemplo, que eu tenho ido com até uma certa frequência, as pessoas estão sofrendo muito ainda. O desastre continua.  

Flora: Para o professor a questão dos desastres é multidisciplinar. Temos que passar a olhar estes eventos como um processo socioambiental. Além disso, muitos desastres podem ser prevenidos. Os eventos climáticos são cíclicos e podemos aprender com eles sobre como nos adaptar de modo a mitigar os perigos de um evento extremo.

Jefferson: O desastre é realmente cíclico, a gente volta para o mesmo ponto. Quando o ideal seria a gente não voltar, ir para outro ponto né? Você vê que tem um problema, você vai para um outro nível. Daí se você tem um desastre você vai estar aqui nesse nível e não no outro. Então você consegue… você não volta mais uma situação precária que você estava, que na verdade ela em si gera um desastre, né? Uma sociedade desigual como a nossa, ela em si já é um desastre. 

Fabíola: É urgente refletir pela perspectiva global e propor ações efetivas para ajustar nosso modo de produzir e consumir. A população aumentou consideravelmente nos últimos anos e este é um dos fatores que contribuíram para a aceleração das mudanças que estamos vivendo. Para o professor o que está em jogo é a sobrevivência da humanidade pois o planeta tem a capacidade de se adaptar sem os seres humanos. 

Jefferson: É a gente precisa pensar seriamente na nossa capacidade de produzir coisas, como a quantidade que a gente está produzindo, a velocidade que a gente está produzindo, e é como que a gente tá produzindo, né? Porque embora a gente tenha tido aí, por exemplo, a revolução verde, que propiciou que a gente tivesse uma produção grande de alimentos e que a gente conseguisse essa produção de alimentos que  pode alimentar a população mundial, ela foi feita com base e produtos químicos que afetam muito o meio ambiente, afetam muito a gente também, então é um beco sem saída, a gente vai ter que achar uma saída para isso. Existem muitas saídas, essas saídas estão sendo dadas no mundo tropical, aqui no Brasil, né? Então, há coisas e propostas que eu acho muito promissoras, mas a gente tem que pensar globalmente, né? Porque não existe uma saída única num momento em que o planeta inteiro tá indo para uma situação complicada, né?

Fabíola: A conversa com o professor Jefferson foi impactante. Relembrar momentos de desastres acontecidos recentemente em nosso país não foi fácil. Mas talvez pelo fato de além de ser jornalista passei, em meu percurso profissional, pela formação em psicologia e pelo mestrado na mesma área, pesquisando luto. 

Flora: Além da perspectiva de conceitos, estudos recentes e formas interdisciplinares de considerar o eventos de desastres socioambientais, trazemos nesse episódio a perspectiva subjetiva daqueles que são os primeiros a chegar para atender um chamado de socorro em uma situação de emergência e desastre.

Fabíola: A Claudia Comaru é doutora em psicologia clínica pela Puc de São Paulo. Em sua tese, ela se dedicou a escutar alguns profissionais bombeiros que atuam em situações de emergências atendendo diversos tipos de ocorrências, como deslizamentos de terras, por exemplo, lidando diretamente com o sofrimento de pessoas afetadas por eventos diversos e lidando com áreas e ambientes de risco. 

Claudia: a minha intenção com essas conversas era entender o impacto do trabalho. O impacto do trabalho em ocorrências. Entender se justamente se tinha uma ocorrência que era mais difícil, se havia algum padrão entre esses 10, mesmo sendo uma quantidade muito pequena de profissionais, mas era a amostra que eu podia naquele momento. E aí eu fui ver a riqueza do que vem, do real do trabalho, né? Vieram peculiaridades como por exemplo, pessoas que têm filhos, bombeiros que têm filhos e que vão para ocorrências com crianças. Então, quanto que essas ocorrências mobilizam, porque vem um discurso já claro, “eu olho para para criança eu lembro do meu filho, eu lembro do meu sobrinho”, né, então ocorrências com crianças; outra categoria ocorrências com animais. Por incrível que pareça né? Então vem um relato de “eu tenho mais dificuldade de socorrer um animal do que uma pessoa. Porque para mim, o animal ele tem menos recurso do que uma pessoa para lidar com aquele sofrimento.” Né, então outras pessoas que falavam de pessoas mais velhas. Um bombeiro que socorreu um parente, né? Que a família morava na mesma vizinhança foram acionados, ele tava no telefone na hora, então o desafio de socorrer os seus né? A dúvida vou ou não vou. Manda a equipe e no caso ele escolheu não ir, né? Então ele falou eu ajudei da minha forma, eu ajudei a equipe que foi. 08:01  

Flora: A Claudia nos contou que a formação dos bombeiros é muito séria e técnica, direcionada principalmente ao salvamento de vidas e com treinamento exaustivo em técnicas para a realização do trabalho nos momentos da ocorrência. Mas além da assimilação técnica há o fator subjetivo, o fator dos significados pessoais que cada profissional tem de lidar diariamente e principalmente após atender um chamado. 

Fabíola: O professor Picanço disse que o desastre continua acontecendo na medida em que temos que lidar com as consequências dele ao longo do tempo. Conversar com a Claudia trouxe a perspectiva emocional do desastre, que continua acontecendo na subjetividade dos afetados, dos profissionais que lidam com estes tipos de eventos e por que não com os leitores e ouvintes de notícias sobre emergências? A Claudia destacou a importância de garantir meios e espaços para que os bombeiros possam lidar com suas emoções de forma segura e acolhedora.  

Claudia: Que recursos vocês usam no dia a dia para lidar com isso, né? E aí o que veio, por exemplo, foi “se a gente tá na equipe que vai para ocorrência e a gente percebe que um ficou muito mobilizado a gente coloca ele na área fria, na área mais de suporte da ocorrência”. Então separando equipamento, vendo viatura, né? contendo o lugar, controlando a população. Então é uma estratégia muito relevante, a equipe percebe o sensível e lida com aquilo, né? Outras pessoas trouxeram a questão da religião o poder ter uma fé e praticar essa fé, orar pela pessoa que socorreu. Então teve uma um bombeiro que relatou que teve uma ocorrência com criança e no caminho entre pegar a criança que já estava morta e entregar para a família ele meio que encomendou o corpo, ele fez uma uma prece, né? E então achei isso tão bonito, tão tocante, que a gente não imagina que venha, né? Outras pessoas trouxeram a questão do acompanhar a vítima no hospital, então, não no sentido de estar do lado dela o tempo todo, mas no sentido de… tá numa ocorrência que vai passar perto do hospital onde tá aquela pessoa, dá uma descida rapidinho a pergunta para o SAMU, pergunta como que tá aquela pessoa que foi socorrida dias atrás, semanas atrás. Então mostra que existe uma ligação que fica. 

Flora: Mesmo sabendo que a Claudia pesquisou sobre a saúde mental e sobre a subjetividade destes profissionais em relação ao trabalho, mas instigadas pelo que aprendemos com a professora Gabriela Di Giulio e com o professor Jefferson Picanço, perguntamos à Cláudia sobre a percepção destes profissionais em relação à vulnerabilidade de alguns locais para algumas ocorrências e sobre a repetição dos eventos de desastres em algumas regiões.

Claudia: Não veio no sentido assim de previsibilidade do que vai acontecer o que veio foi, “tive uma ocorrência de deslizamento de terra que todo ano tem” então, o que veio foi isso assim, né? O que eu faço com isso ou que a Corporação faz com isso, eu não captei né? Mas veio essa percepção de que é algo cíclico é algo que sempre acontece. Agora assim não falando da minha pesquisa especificamente mas falando de bombeiros de modo geral, tem o Farah que é da corporação de Minas Gerais, que faz um trabalho, mas aí eu não percebo esse trabalho tanto dentro dos bombeiros,  que se eu não me engano ele tá licenciado, mas é um trabalho paralelo de de ter uma junta de profissionais que atuam em ocorrências e que tem o objetivo de fomentar políticas públicas, de levar essa discussão de prevenção, de treinamento de comunidade, né? De percepção de risco da comunidade a nível de estado a nível federal. Então o que eu conheço de iniciativa é de um bombeiro, mas que faz isso fora da corporação, né?

Fabíola: Este profissional que a Claudia menciona é o Capitão do Corpo de Bombeiros Militares do Estado de Minas Gerais, Leonard Farah. Ele é especialista em Redução de Risco de Desastres pela ONU e Gestão de Desastres pela UNESCO.

Flora: O trabalho interdisciplinar para a adaptação à nova realidade climática e mitigação do sofrimento vai além das estruturas acadêmicas. É necessário envolver a comunidade e considerar também aspectos subjetivos das populações em risco. Poderíamos falar sobre muitos outros aspectos urgentes neste episódio sobre desastres, mas no encontro com estes três especialistas já surgiram muitas questões a se pensar.

Fabíola:  Desastres afetam não só o ambiente e pessoas diretamente ligadas ao local da ocorrência. Desastres afetam a sociedade como um todo. A cada evento de crise ocorrem impactos extra territoriais com reverberações ao longo do tempo e de gerações.

Fabíola: Pensar a ciência em toda a sua complexidade e multidisciplinaridade deve ser um compromisso de todos e principalmente daqueles que se dedicam a ela. Além disso é um compromisso de todos também, criar meios para que a ciência seja praticada em benefício de todos, humanos e não humanos. A ciência é um bem comum.  

Fabíola: Este foi o quarto episódio de uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de pesquisar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. A divulgação científica dos trabalhos deste grupo é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. 

Flora: Esse episódio foi apresentado por mim, Flora Villa e pela Fabíola Junqueira, também responsável pela pesquisa e elaboração do roteiro. 

Fabíola: O Daniel Faria e a Elisa Valderano fizeram a edição deste episódio e a trilha sonora é do Felipe dos Reis Campos.

Fabíola: A revisão do roteiro foi feita pela coordenadora do Oxigênio, a Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. Os trabalhos técnicos são do Octávio Augusto Fonseca, da rádio Unicamp. 

Flora: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais, estamos no Instagram, no Facebook e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”. Para acessar o roteiro deste episódio e as referências mencionadas aqui basta acessar o nosso site. 

Fabíola: Se você se interessa pelo tema das mudanças climáticas recomendamos que ouça os episódios 153 e 161. Deixe seus comentários em nossas redes sociais e obrigada por ouvir.  Até o próximo episódio!

Referências:

Episódio 122 –  Escuta Clima – ep. 4 – Vulnerabilidade: as vítimas das mudanças climáticas
Episódio 151 – Dicionários temáticos: significados além das palavras
Episódio 153 – Emergência climática e as implicações do Relatório do IPCC (ep. 1)
Episódio 161 – Mudanças Climáticas e as Implicações do Relatório do IPCC: Episódio 2 

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