#170 – Série Cidade de Ferro – ep. 1: Um doloroso quadro na parede
ago 24, 2023

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Neste primeiro episódio da série Cidade de Ferro – histórias de poesia e mineração – Um doloroso quadro na parede, Yama Chiodi narra sua chegada à cidade de Itabira e reflete sobre como a paisagem profundamente marcada pela mineração se mistura com a história e obra do poeta Carlos Drummond de Andrade. Neste episódio, Lucas Nasser, doutorando em direito e autor do livro “Entre a vila e a mina: violações de direito em Itabira”. Fernanda Capuvilla dá voz aos poemas de Drummond e a Elisa Valderano fez a edição.

Cidade de Ferro – histórias de poesia e mineração é uma nova série, produzida pelo antropólogo e repórter Yama Chiodi e resultante da parceria do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, com o Oxigênio. Dividida em quatro episódios, a série trata dos efeitos da mineração na cidade de Itabira, cidade natal do grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, hoje o grande atrativo turístico do município, frente a outro atrativo de antes, o pico do cauê, possivelmente a maior mina de ferro que já existiu, e que hoje é uma enorme cratera. Participa do projeto a Fernanda Capuvilla, dando voz aos poemas de Drummond e a Elisa Valderano, que fez a edição do podcast.

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Roteiro

Fernanda Capuvilla: Muitas vezes o mundo acaba em silêncio, ou fazendo um barulho leve de folha. Tempos depois é que se percebe, mas já então vivemos em outro mundo, com suas estruturas e regulamentos próprios, e ninguém leva lenço aos olhos do falecido. (…) A história é cemitério de mundos (…). 

Yama Chiodi: Olá! Eu sou o Yama Chiodi e começamos hoje a série Cidade de Ferro – histórias de poesia e mineração, uma parceria do Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT, com o Oxigênio. Esse trechinho que você ouviu a Fernanda Capuvilla falando é de autoria do Carlos Drummond de Andrade. Toda vez que você ouvir a voz dela vai ser recitando o poeta mineiro. 

(pequena pausa)

Yama: Uma de suas mais famosas poesias fala da dor e da saudade de sua cidade natal. Itabira foi o berço da Vale do Rio Doce e, durante um período, o epicentro da exploração de minério de ferro no mundo.  Talvez você conheça esses versos:

Fernanda

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

(…)

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Yama: Na minha pesquisa de doutorado eu passei os últimos anos seguindo um sem fim de histórias de fim de mundo,  em especial aquelas que ligam a crise ambiental e a literatura. A arte, uma vez mais, parece ser um instrumento poderoso pelo qual conseguimos falar sobre as tragédias do nosso tempo. Poucas dessas histórias me encantaram tanto quanto o progressivo desencanto de Drummond com sua cidade natal. Sua obra vai trocando aos pouquinhos as memórias de infância numa pacata e bucólica Itabira pelo profundo pesar com o que a mineração fez com a cidade. O maior símbolo da cidade até hoje é o pico do cauê – possivelmente a maior mina de ferro que já existiu. Não por acaso, é a silhueta do pico que estampa a bandeira municipal. Ao entrar na cidade somos recebidos por um portal, em forma de arco, recém-inaugurado, que exibe a forma fantasma de um pico que já não existe mais e uma referência a Carlos Drummond de Andrade. O que era pico, hoje é buraco… literalmente. 160m de altura, agora um buraco de não se sabe quantos metros negativos no chão. O pico que ficou conhecido na poesia como a montanha pulverizada. 

Como mineiro conheço histórias da destruição minerária em primeira mão, mas desde a capital, do medo pelo futuro do que sobrou da Serra do Curral. Decidi que era hora de retornar a Itabira. E é a história dessa visita de campo que quero contar para vocês. 

[ vinheta oxigênio]

Yama: Vivi a maior parte da vida no limite do quadrilátero ferrífero. Uma região no coração de Minas que já foi a maior reserva de minério de ferro do mundo e hoje ainda exporta o que sobrou, cercada de barragens e destruição. É nesse quadrado imaginário que ficam Bento Rodrigues e Brumadinho. Casa do desastre presente e futuro da mineração no Brasil. Eu quero agora parar um pouquinho e falar alguns dados sobre as barragens de rejeitos em Minas Gerais. São dados assustadores. 

  • Só no estado de Minas Gerais hoje são 350 barragens de rejeitos, cerca de 40% do total do Brasil. Destas, quase um terço de responsabilidade da Vale. 
  • São 58 municípios mineiros com barragens. 
  • 150 barragens classificadas com dano potencial alto e 37 classificadas com categoria de risco alto. 

Essas duas categorias podem parecer a mesma coisa, mas são diferentes. O dano potencial associado, ou DPA, é usado para medir possíveis consequências sociais, econômicas e ambientais que uma barragem de rejeitos pode ter em caso de dano ou acidente. Ou seja, um dano potencial alto significa uma maior chance de causar um desastre de grandes proporções. Tanto a barragem de Fundão, que rompeu em Mariana, como a da Mina do córrego Feijão, em Brumadinho, eram consideradas de dano potencial alto – o que não deve surpreender ninguém. 

Já a categoria de risco, ou CRI, avalia a chance de uma barragem romper ou provocar desastres. Ou seja, uma barragem com categoria de risco alto é uma que tem maiores chances de rompimento. O que assusta e surpreende é que as duas barragens que se romperam e causaram os maiores desastres ambientais da história do Brasil eram consideradas de baixo risco. 

Voltando à capital, a Serra do Curral, limite geográfico do quadrilátero ferrífero, está hoje ameaçada. Ou mais ameaçada do que nunca. Símbolo maior da paisagem belorizontina, que figura na bandeira da cidade, ela corre risco de ter o mesmo destino do pico do Cauê. Olhando pra ela da janela de casa em Belo Horizonte, encontro ressonâncias tristes na poesia de Drummond – ele próprio previu esse cenário no poema Triste Horizonte.

Fernanda

(…) Tento fugir da própria cidade, reconforta-me
em seu austero píncaro serrano.
De lá verei uma longínqua, purificada Belo Horizonte
sem escutar o rumor dos negócios abafando a litania dos fiéis

(…)

Esta serra tem dono. Não mais a natureza,
a governa. Desfaz-se, com o minério,
uma antiga aliança, um rito da cidade.
Desiste ou leva bala. Encurralados, todos,
a Serra do Curral, os moradores
cá embaixo. Jeremias me avisa:
“Foi assolada toda a serra; de improviso
derrubaram minhas tendas, abateram meus pavilhões.
Vi os montes, e eis que tremiam.
E todos os outeiros estremeciam.
Olhei para a terra, e eis que estava vazia,
sem nada nada nada” 

Yama: Ao voltar a sua cidade-natal uma última vez nos anos 60, de avião, por ocasião do funeral de sua mãe, Drummond teve visão privilegiada da extensão da destruição. O pico do cauê já não havia. Foi com a intenção de encarar o fantasma do Cauê nos olhos que parti para Itabira com um amigo itabirano de longa data, como guia e testemunha. 

Lucas Nasser é uma companhia privilegiada para este fim. Nasceu e viveu em Itabira, com as famílias de ambos os lados itabiranas. E também foi expulso da cidade pelo pó de ferro, como ele me conta:

Lucas Nasser: Eu nasci em Itabira e minha família é toda de lá, tanto paterna como materna. E tive que me mudar pra Belo Horizonte por prescrição do pediatra, né? Eu tinha… acho que é muito comum nessa idade, tem até alguns estudos de algumas fundações, Fundação Ezequiel Dias, por exemplo, Carlos Chagas, que mostram a relação de doenças respiratórias com a atividade da mineração. E em crianças isso fica mais aguçado, né?

Yama: Tal como o poeta, seu êxodo para Belo Horizonte foi parte importante de refletir sobre sua cidade natal. Lucas é o autor do livro Entre a Vila e a Mina: violação de direitos em Itabira, fruto de sua premiada pesquisa de mestrado. O livro foi publicado pela editora Expert e está disponível para download em link que deixo na descrição do episódio. 

Agora, convido os ouvintes do Oxigênio a pegarem um trem de ferro comigo e meu amigo itabirano até o pico do cauê, nessa história de poesia e mineração, dividida em quatro partes. Esta é a primeira. 

[vinheta cidade de ferro – episódio 1] 

Yama: PARTE 1 – UM DOLOROSO QUADRO NA PAREDE

Yama: Se aproximar da cidade de Itabira é deixar a paisagem contar sua história. Fica muito claro que uma intervenção de grandes proporções aconteceu ali. As estradas ficam estreitas e claustrofóbicas. De um lado e de outro, eucaliptos enormes não te deixam saber o que havia ali antes. Os bancos de barro, por outro lado, são reveladores. Aos pés dos jovens eucaliptos, o barro é cinza e não deixa dúvidas de que o ferro esteve ali. Em meio a essa nova floresta que parece esconder um segredo, começam a surgir placas. Placas colocadas pela Vale S.A e sobre as quais vamos falar muito. A primeira que noto antes de entrar na cidade indica o nível de risco: cinco, vermelho, máximo. 

Lucas: Um lugar da Vale, né? E tem várias coisas assim, tem placas que boa parte é recente, principalmente depois dos crimes de Mariana, ce tem uma exigência do estado. Só que o estado fez um grande acordo com a Vale, né? Então a governança é toda da Vale. O que não é diferente da atividade econômica, né? Ce tem muita extração da Vale que ce vai calcular a tributação na auto declaração da empresa. Então é a empresa que faz tudo, né?

Aí vc tá colocando o poder local, que em tese é a coisa mais básica, que é colocar uma placa, tá delegado, parece que são despachantes. É figurativo, né?

Yama: Curiosamente, contudo… o risco que a placa avalia não é o de uma barragem. É o risco de queimadas. Eu não tenho dados para confirmar essa hipótese. Mas é fato que a plantação massiva de eucaliptos em Itabira acontece para esconder terrenos devastados  pela mineração. Sem o suporte natural nos solos para fornecer água e nutrientes para toda aquela massa de madeira que não havia, é de se esperar que isso se some à estação seca do cerrado e promova uma piora nos focos de queimadas. Que seja a Vale a responsável por avisar do risco de queimadas em placas, já diz alguma coisa.

Lucas: É bem sintomático, né? Ce tem o risco não é só da mineração, né? Ce tem diversas esferas de violações acontecendo ao mesmo tempo que se esbarram, se cruzam. 

Yama: O Lucas está se referindo também às violações de direitos básicos que acontecem na cidade. Bairros inteiros removidos do dia pra noite. Casas rachadas pelas explosões provocadas para extrair o ferro. E um senso de identidade fraturada, num contexto em que parece que é a cidade que se move para mineração passar. 

Yama: A gente se aproxima da entrada da cidade e é recebido por um arco recém-inaugurado. Um portal construído numa estrutura metálica.  Ele exibe um desenho com o antigo perfil de pico do Cauê e mensagem que informa que somos bem-vindos na cidade de Carlos Drummond de Andrade. O arco foi inaugurado pelo novo prefeito, que tem investido no potencial cultural de associar o poeta à cidade. O Lucas se incomoda com o arco. Enquanto a gente passa por ela, ele só me diz que é barango. Em conversa posterior ele desenvolve um pouco mais. 

Lucas: Que isso… ces tão romantizando uma destruição e uma redução também a uma narrativa e uma tentativa de remendo dessa narrativa. Então ce tenta remendar como se… o Drummond tinha um saudosismo daquela Itabira, né? Não dessa Itabira que está à mercê do extrativismo, desse capitalismo financeirizado, globalizado.   Essa placa reduz  tudo, como se Itabira que não tivesse vida. Teve um cidadão ilustre que passou por aqui. Então assim, me parece ultrajante mesmo. Uma farsa. Uma narrativa criada pra legitimar a  perpetuação de uma atividade que continua na cidade, que não é debatido. Esse minério ele tá na calçada, mas não tá na calçada o debate desse minério. 

Yama: Passando pelo arco, mais eucaliptos, mais placas da Vale, alguns morros transformados em arquibancadas pela mineração e finalmente algo que parece cidade emerge em nossa frente. Uma praça grande, tem uma grande universidade privada em seu limite, mas ao atravessá-la no meio, adivinha quem nos recebe? À esquerda, uma grande estátua de metal do Drummond. A primeira de pelo menos 6 que eu vi na cidade. À direita, uma maria fumaça. Um pedaço fractalizado do maior trem do mundo. 

Fernanda

O Maior Trem do Mundo

O maior trem do mundo
Leva minha terra
Para a Alemanha
Leva minha terra
Para o Canadá
Leva minha terra
Para o Japão

O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição

O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo
Meu coração itabirano

Lá vai o trem maior do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo
E um dia, eu sei não voltará

Pois nem terra nem coração existem mais.

Yama: Na praça de entrada da cidade é impossível deixar de notar a fina camada de sujeira preta que toma os bancos, o chão, as estátuas de poetas e o asfalto. Na poesia ele já se referia a esse pó pela insistência. “Mísero pó de ferro que nunca passa”. Tão insistente que é memória viva da infância do Lucas. 

Lucas: Na minha memória de criança eu lembro muito de trem, né? Ce viu ali, a casa da minha avó é do lado de um pátio de uma terceirizada da Vale e no fundo tem uma linha de trem. Então eu escutava o trem e lembrava do minério, né? Que nem eu te falei, eu não sabia o que era minério. (…) Ninguém explicava, tipo assim. Minério pra mim era o pó. Algo sujo.

(…) Isso é muito latente assim… ce pára na primeira praça da cidade, que tem uma grande estátua do Drummond, grande ícone, guru, super explorado, mas a cidade você chega numa praça comum, é o quê?, uma maria fumaça, uma grande estátua do Drummond e o asfalto de minério. Se vc passar a mão, assim, ce vai ter minério…, E isso também tem uma memória muito afetiva, porque eu não sabia de criança, eu não sabia o que era minério. Falava que era minério eu achava que era um pozinho, não tinha muita dimensão. E é minério em tudo, cara. No muro das casas, no asfalto, e aí o trem não é tampado, não sei que você chegou a ver, a gente viu os trens, mas eu não lembro se eles tavam carregados, né? Então aquilo vai pulverizando, cara. E sei lá, parece que é um pólen, o minério ali tem, vai no ar e vai se espalhando nas várias esferas, né?

Yama: O pó de minério parece um véu que encobre crimes terríveis sobre os quais não se pode falar. O escritor e teórico da literatura José Miguel Wisnik fala que ao visitar a cidade ele teve a sensação de que um crime terrível foi cometido a céu aberto e, de alguma forma, silenciado. Essa descrição na verdade é muita acurada. Conversando com trabalhadores e ex-trabalhadores da Vale, alguns parentes do Lucas, fica claro que há uma disposição limitada em se criticar a empresa. 

Yama (em conversa): Você me disse que sentiu isso no trabalho de campo, né? Certa reticência das pessoas em reconhecer os problemas da atuação da Vale, mesmo com a destruição super visível em qualquer direção que se olhe. Você falou de “uma coisa oculta”. 

Lucas: Uma coisa oculta, não falada, mas todo mundo sabe que tem algo. Tem algo estranho nas ruas. Ce percebe que as pessoas são desconfiadas. Acho que cê conversou com meu tio, né? Acho que ce percebeu né? Que as pessoas… é um morde e assopra. Não quer relatar tudo,  não quer ser um delator. Parece que os filhos que saem que botam a boca no trombone. Da pesquisa que eu fiz, peguei relatos, ah, tudo é tio e primo no interior, né? O trabalhador número 2 fichado na Vale, ele é da grande família assim né?, expandida. E aí coletamos o relato dele, ele muito ressabiado, ele contava algumas coisas, mas ele não queria se comprometer mesmo ele estando aposentado há 40 anos. 

Yama (em conversa): Foi. Seu tio ao mesmo tempo que contava dos acidentes fatais que rolavam, como era inseguro trabalhar e como era tudo feito à mão na época dele, ele ainda ameniza esse relato com a esperança de que “parece que encontraram algo muito mais valioso que o ferro pra explorar agora, que vai renovar Itabira”. 

Yama: O Lucas menciona que os filhos que saem que parecem colocar a boca no trombone. Foi assim com o Drummond. Ele era crítico da mineração e desgostoso com o que a cidade se tornou. Preferia Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. E por muito tempo, e tem vários registros disso, os itabiranos trataram o poeta como traidor, como alguém que saiu e fala mal da cidade. Tem uma conversão de narrativas onde parece que criticar a Vale e criticar Itabira é a mesma coisa. Então é bastante curioso que esse resgate do Drummond como mito surja agora, como narrativa principal sobre a cidade. Mas a gente vai falar sobre esse tema na última parte dessa série. Por ora, eu queria assinalar esse dado etnográfico estranho… a destruição visível da cidade causada pela Vale não parece ter afetado tanto quanto eu esperava a disposição do itabirano em criticar a empresa ou de reconhecer o estrago que ela fez ao longo dos últimos 81 anos.

Era assim na época da Companhia Vale do Rio Doce e, com suas devidas proporções, é assim também no tempo da Vale S.A – onde o poder público deixa de ser dono pra ser parte menos em uma parceria profundamente desigual e questionável com a empresa. 

Lucas: Na verdade acho que o poder público, ce tem um grande conluio, ce tem um grande acordo nacional, um grande acordo municipal, né? Que passa pelo poder local ali,

Yama (em conversa): e estadual, né?

Lucas: e estadual, referendado, né? Lei kandir e outras formas de incentivo e leniência mesmo. Então, ce tem muitas vezes o poder local como despachantes da mineradora.

Antes da gente partir pra última parte do nosso episódio, eu queria convidar vocês para ouvir o podcast Mundaréu, um podcast de antropologia feito em pareceria do Labjor com o departamento de antropologia da UNICAMP. No início do mês de agosto começou a 4a temporada, que vai se dedicar a pesquisas sobre ciência e tecnologia desde a América Latina, e a partir de antropologias feministas que sejam antirracistas, interseccionais e decoloniais. O primeiro episódio já está disponível e o segundo sai no começo de setembro. O projeto é coordenado pelas pesquisadoras Daniela Manica, da Unicamp,  e Soraya Fleischer, da UNB. Pra ouvir é buscar Mundaréu no seu tocador de podcasts. 

Yama: Se eu posso resumir como é chegar em Itabira com olhos atentos ao que a mineração fez a com a cidade, é assim: pó, pó, pó. Eucaliptos fingem ser florestas para tapar morros semi-mortos. E dessa cidade zumbi, meio morta meio viva, um grande esforço do governo local de reativar Carlos Drummond de Andrade como figura mítica. Se Drummond mito vai ser capaz de renovar a crítica e um senso de memória para Itabira é algo que a gente discute na última parte dessa série. Por ora, vamos dar um passinho para trás e entender como a história de uma cidadezinha qualquer se misturou com a mineração num abraço mortal. Faço isso contemplando o horizonte Itabirano, de onde a mineração parece inescapável. Não há um só morro intocado, sem sinais faraônicos de intervenção minerária. Mesmo do centro histórico, não é fácil imaginar a cidadezinha bucólica que inspirou o poeta e da qual ele sentiu tanta saudade. 

Fernanda:

Cidadezinha qualquer

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus. 

____________

Yama: Na segunda parte dessa série, eu retomo  de modo breve uma linha do tempo de como Itabira e a mineração se tornaram inseparáveis. Em paralelo, as idas e vindas do filho bastardo que agora volta como mito e herói do turismo local. 

Este episódio foi roteirizado e produzido por mim, Yama Chiodi. A revisão foi da coordenadora do Oxigênio, Simone Pallone. Quem narrou as poesias do Drummond foi a Fernanda Capuvilla e quem conversou comigo foi o Lucas Nasser. 

A edição do áudio foi feita pela Elisa Valderano. O Oxigênio é um podcast produzido pelos alunos do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e colaboradores externos. Tem parceria com a Secretaria Executiva de Comunicação da Unicamp e apoio do Serviço de Auxílio ao Estudante, da Unicamp. Além disso, contamos com o apoio da FAPESP, que financia bolsas como a que me apoia neste projeto de divulgação do  Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, o GEICT. 

A lista completa de créditos para os sons e músicas utilizados você encontra na descrição do episódio.

Você encontra todos os episódios no site oxigenio.comciencia.br e na sua plataforma preferida. No Instagram e no Facebook você nos encontra como Oxigênio Podcast. Segue lá pra não perder nenhum episódio! Aproveite para deixar um comentário.

Aerial foi composta por Bio Unit; Documentary por Coma-Media. Ambas sob licença Creative Commons. 

Ambos os sons de trens utilizados nesse episódio foram feitos por Sandro Lima e são livres para uso. 

Os sons de rolha e os loops de baixo são da biblioteca de loops do Garage Band. 

Livro do Lucas Nasser: Entre a vila e a mina violações de direitos. Baixe gratuitamente em: https://experteditora.com.br/entre-a-vila-e-a-mina/

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