#160 – Emergências: Governança, Risco e Comunicação – Ep. 3: Desinformação e Jornalismo Científico
fev 10, 2023

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Neste terceiro episódio da série Emergências: Governança, Risco e Comunicação, a Fabíola Junqueira (@fabiolamjunqueira) e a Flora Villas (@flora.villas) falam sobre desinformação, principalmente sobre vacinas, e sobre como a Rede Globo e a Rede Record transmitiram informações científicas sobre a pandemia nos principais telejornais de domingo. Elas conversaram com a Mariana Hafiz e com o Rafael Revadam, pesquisadores do grupo CIRIS, que investiga Governança, Riscos e Comunicação no Brasil. Este episódio faz parte de uma série que fala sobre os trabalhos do grupo formado por pesquisadoras e pesquisadores do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. A divulgação científica destes trabalhos é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. 

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Roteiro

Fabíola Junqueira: Olá, eu sou Fabíola Junqueira e este é o terceiro episódio de uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de estudar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. 

Flora Villas: Olá, eu sou Flora Villas e ao longo dos episódios você vai ouvir pesquisadores e pesquisadoras do grupo CIRIS, que fazem parte dos programas de mestrado e doutorado do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, e do Instituto de Geociências, ambos da Unicamp e do Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, além de outros cientistas e especialistas convidados.

Fabíola: Neste episódio vamos falar sobre Desinformação. O que significa, como circula nos meios de comunicação, os impactos na nossa vida diária. E vamos falar também sobre como a Rede Globo e a Rede Record transmitiram informações científicas sobre a pandemia nos principais telejornais de domingo. 

Fabíola: Para entender um pouco sobre o que significa Desinformação conversei com a  Mariana Hafiz, mestranda em divulgação científica e cultural e jornalista especializada em ciência pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, o Labjor, da Unicamp. Ela analisou diversas peças de desinformação sobre vacinas que circularam nas redes sociais durante os dois primeiros anos da pandemia de COVID-19. A Mariana selecionou e analisou peças de comunicação identificadas como Desinformação por agências de checagem participantes da Coronavirus Fact Alliance. Uma iniciativa mundial para checagem de informações.

Mariana Hafiz: Eu estudo desinformação sobre vacina. Eu sempre tive mais interesse para pesquisa e estudar comunicação. Aí eu fui fazer especialização em jornalismo científico e comecei a explorar essa relação de ciência e sociedade, acabei acabando essa especialização em 2020, quando eclodiu a pandemia, né? E aí explodiu com a pandemia e vários temas vieram, né? Desinformação sobre a sobre as máscaras, sobre o próprio vírus e sobre as vacinas. E as vacinas me chamaram atenção porque é algo muito constitutivo nosso, né? Enquanto brasileiro a gente tem momentos marcantes na história 

Flora: O primeiro passo do estudo da Mariana foi mapear como surgiu a discussão sobre o tema. Quando começamos a falar sobre desinformação? Em que momento começamos a nos preocupar com a circulação de informações incorretas e começamos a tratar este fenômeno como algo de interesse científico? 

Mariana Hafiz: Como é uma área muito nova de pesquisa, desinformação a gente começa a estudar tanto nos Estados Unidos, na Europa e aqui no Brasil em 2016 e 2018, né? Então a gente tem um contexto ali da eleição presidencial dos Estados Unidos, que elege Donald Trump, que é quando a gente começa a falar de Fake News. Aí a gente tem aqui no Brasil, principalmente a eleição de 2018. É lógico que isso não são fenômenos que começam a acontecer aí, mas eles ganham uma relevância especial no debate público para começar a ser estudado de forma científica. E realmente a minha primeira dificuldade foi entender esses diferentes termos, né? Que antes a desinformação começa a ser estudada dentro de um contexto muito político, de eleições e plebiscitos.  

Fabíola: Em seguida foi necessário identificar as diversas formas de desinformação que circulam por aí. A Mariana encontrou alguns termos ainda sem tradução em português. Você já deve ter ouvido falar em Fake News ou Misinformation, não é mesmo?

Mariana Hafiz: A primeira o que é mais é bem citada nos trabalhos que eu tenho olhado é essa tríade aí:
Desinformação – que são conteúdos falsos e compartilhados intencionalmente. Então essa é uma definição que ela parte do pressuposto de que um conteúdo pode ser enquadrado mais ou menos como desinformação a partir do quanto ele teria a intenção de enganar. Então, por exemplo, a desinformação é um conteúdo que é compartilhado com a intenção de enganar, é um conteúdo falso, compartilhado com a intenção de enganar.

A Misinformation é um termo que não ainda não tem uma tradição clara em inglês, inclusive é algo que eu abordo no meu trabalho que é uma das dificuldades de a gente estudar. Isso no contexto sul geográfico, né? E no país de língua não inglesa a gente ainda não tem esse conceito traduzido, mas são informações também falsas, mas que são compartilhadas sem a intenção de enganar, você pode receber, não saber que aquilo é falso e compartilhar porque você realmente acha que você tá ajudando alguém né? Isso acontece muito e todos nós somos sujeitos.

Aí você tem um outro âmbito que é a Má Informação e que aí já são informações verdadeiras. Mas elas são compartilhadas com o intuito de causar algum dano. Então vazar fotos íntimas, por exemplo. A gente tem visto muito acontecer. Você vazar algum trecho de conversa fora do seu contexto, coisas antigas, enfim.

Flora: De acordo com a pesquisadora, alguns autores chamam este fenômeno de Desordem Informacional, cujas consequências vão de desestruturação e desconfiança de instituições científicas consolidadas e fomento aos negacionismos, até movimentação de altos valores financeiros para produtores interessados em lucros, por exemplo. Enfraquecer a confiança nas vacinas facilita a comercialização de remédios alternativos para o tratamento, por exemplo.

Mariana Hafiz: Isso são fenômenos complexos porque pelo menos o que eu vejo na minha pesquisa, política e ciências, é difícil você saber o que que a pessoa está indo contra, né? A reação ao Dória aparece muito forte. Então você não sabe se a pessoa realmente é contra a vacina ou é contra o que o Dória fez todo aquele movimento político da corrida das vacinas aqui no Brasil. Isso parece ser algo relevante, tem um pesquisador, o Gilberto Rockman, da Fiocruz, ele fala muito sobre como hoje a gente revisitou o contexto da revolta da vacina, por exemplo, e falar “as pessoas negaram a vacina”. Mas na verdade era um contexto em que as pessoas que estavam muito descontentes com o Estado, né? Então você tenta embelezar a cidade do Rio de Janeiro tirando as pessoas do centro para periferia. E aí no meio disso você ainda entra na casa delas e coloca uma injeção enorme assim no braço forçadamente, então assim, será que era contra as vacinas ou será que era a contra a ação do Estado? Então ainda são coisas sendo estudadas, mas é muito fácil enquadrar realmente como negacionismo, né? 

Fabíola: A Revolta da Vacina, que a Mariana menciona aconteceu em 1904 no Rio de Janeiro. A cidade era a capital do Brasil, a maior do país em número de habitantes, havia crescido rapidamente e desordenadamente, e enfrentava diversos problemas decorrentes da falta de estrutura sanitária. O estado combatia pestes e surtos de maneira violenta e autoritária. Em 31 de outubro foi aprovada uma lei de vacinação obrigatória contra a varíola e a população se organizou em motins contra a imposição. Revisitando a história fica claro que não houve uma ação eficaz de educação da população e informação sobre a doença. Apesar das revoltas, manifestações, feridos, deportações e destruição material da cidade, a doença foi erradicada.  

Flora: A ciência faz parte do nosso dia a dia e influencia diretamente muitas das nossas decisões. Muitas vezes não temos consciência disso. No primeiro ano da pandemia de COVID-19 observamos este movimento através de inúmeros meios de comunicação que colocaram cientistas como protagonistas do saber e do desenvolvimento de pesquisas relacionadas ao novo vírus. Pudemos acompanhar a elaboração das vacinas quase em tempo real. É natural e compreensível que surjam muitas dúvidas quando estamos tão próximos deste processo que envolve a vida e a saúde de milhares de pessoas.

Fabíola: Mas é importante deixar claro que ter dúvidas e lidar com controvérsias é diferente de produzir desinformação.

Mariana Hafiz: Elas não são as vacinas que a gente está acostumada, elas foram desenvolvidas a olho público. Eu entendo assim, pessoas que não sabem o que vai acontecer com elas. Será que tem reação? Será que não tem? Pessoas realmente confusas que hoje a gente chama das pessoas que são hesitantes. Com essas pessoas a gente ainda consegue conversar, a gente consegue dialogar com elas. Não é? Lógico que não é você chegar e tacar o fato lá o número da eficácia. Mas por exemplo, quando a decisão não é para você, né? Então né me vacinar, é vacinar era o meu filho, né? Isso tem um peso muito mais forte. Então são dúvidas que surgem e que eu não acho que isso seja enquadrado como desinformação. E é isso que esses autores dialogam, né? São essas questões que surgem a partir do momento em que a ciência extrapola os muros ali da sua própria comunidade, dos seus pares e ela vai conversar com pessoas que estão tomando decisões diariamente.

E que talvez tenha outras preocupações além de procurar por eficácia, entendeu? Elas estão preocupadas com sua segurança, com a segurança dos seus filhos, sabe? Tem essa parte da preocupação genuína que aí é onde eu acho que os conceitos de Conversa Pública sobre Ciência, e as questões de talvez até controversas, da gente falar sobre a ciência na sociedade, com a sociedade, sabe? Acho que são conceitos que conseguem abranger a complexidade do fenômeno de você lidar com pessoas reais que estão em dúvida que é tudo bem assim, né? Isso é um aspecto diferente de você produzir aí uma desinformação com a vontade de vender algum remédio, né? Ou de utilizar isso como discurso político que é o que aconteceu muito no caso da Coronavac.

Flora: Em sua pesquisa Mariana encontrou diversas peças de desinformação sobre vacinas com tendências políticas, associando a Coronavac ao então governador do Estado de São Paulo João Dória em mensagens ideológicas. 

Fabíola: E no meio de tantas mensagens que passam por nós diariamente, como reconhecer uma desinformação? E por que é importante reconhecê-las?

Mariana Hafiz: A gente consegue ver que são conteúdos que circulam em todas as redes. Então assim, às vezes o mesmo post no Facebook, por exemplo, é o mesmo conteúdo, a mesma ideia, o mesmo argumento, só que ele vai ser passado por uma mensagem do WhatsApp, ou a mensagem do WhatsApp tem um link para o vídeo no YouTube, ou é um tuíte, sabe? Acaba que são coisas muito parecidas porque na hora que circula, o negócio sai de controle, né? Porque que a gente fala que isso é importante? Por causa da tomada de decisão se a gente tá falando de hesitação vacinal as Fake News contribuem com isso, né? Fake News não é um termo amplamente aceito aí na comunidade, mas a gente acaba falando pela praticidade de uma conversa. Mas assim, isso pode influenciar, entendeu? Isso pode levar um quadro de hesitação.

Flora: E nós, como participantes de redes sociais, podemos colaborar com o combate à desinformação a partir de algumas ações simples antes de repassar uma comunicação. Como por exemplo, checar a procedência daquele material, quem produziu a peça, checar a fonte, observar se há indicação de origem da foto ou do gráfico, se há link para confirmação da informação. Conhecer estes detalhes pode nos dar autonomia de pensamento para avaliar se a informação é confiável.

Fabíola: Enquanto a   pesquisa desinformação sobre vacinas, o Rafael Revadam investigou como o conhecimento científico foi transmitido à população em importantes programas televisivos veiculados em horário nobre na rede aberta. Ou seja, como telejornais que chegam na casa da grande maioria dos brasileiros falam sobre ciência.

Rafael Revadam: Eu sou o Rafael Revadam sou jornalista, pela Universidade Municipal São Caetano e atualmente eu sou Mestrando em divulgação Científica e cultural do Labjor Unicamp. A minha linha de estudo é analisar o jornalismo. Como que o jornalismo mudou com a pandemia, né? Então é uma análise de jornalismo científico, principalmente focando em TV.

A minha pesquisa analisa o jornalismo televisivo e as mudanças que ocorreram nele com a pandemia. O meu objeto de estudo são as emissoras Record e Globo. Então eu já fiz um estudo teste envolvendo Fantástico e o Domingo Espetacular e agora eu tô na pesquisa principal analisando o Jornal Nacional e o Jornal da Record. 

Flora: Um dos cuidados do Rafael na escrita da dissertação é a forma da comunicação. Depois de anos trabalhando como repórter, transmitindo notícias e informações da forma mais compreensível possível e se identificando como um jornalista especialista em ciência, é importante para ele que o material final seja acessível ao público em geral e não só contribuir com a produção de conhecimento restrito à comunidade acadêmica. 

Fabíola: Para o pesquisador o encontro das duas áreas, ciência e jornalismo, é desafiador e depende do apoio de políticas públicas de incentivo ao conhecimento científico desde a formação escolar.

Rafael: O desafio vai ser assim, quando essa pandemia acabar, ela não vai acabar, né? Porque a gente já entendeu que vai ter um vírus sobre o outro ou a gente vai ter que normalizar, né, essa vacinação, o desafio é pensar num hoje e no futuro ao mesmo tempo, né? E eu acho que é um momento muito delicado, por isso que eu falo que não é o momento de culpabilização, é um momento da gente entender as precariedades, entender a ciência e o jornalismo e ver o que pode ser feito adiante. Eu acredito muito que são duas áreas que dependem muito de política, né, de política pública, mas de política pública que dê incentivos, mas que dê autonomia também, né, jornalismo e a ciência eles vivem de autonomia, né? Então é um… querendo ou não são áreas muito diferentes, mas que partem de princípios muito iguais. Então eu acho que nesse momento a gente precisa repensar o que tá, né, o que está em jogo, tem muitas coisas em jogo. A gente tá falando de um sucateamento governamental que existe há pelo menos sete anos, né? Não dá para culpar só o governo Bolsonaro, a gente tem que falar do histórico do governo Temer também. Então a gente tá vivendo as consequências disso. A gente não pegou nem as piores, né? O jovem que está se formando no novo ensino médio não chegou ainda no mercado de trabalho. Então as coisas são muito graves, né? A gente precisa pensar numa reestruturação desde a cadeia primária, desde o acesso à informação.

Flora: Mas antes de conversar com o Rafael sobre o que ele encontrou na sua pesquisa sobre divulgação científica de importantes telejornais, a gente perguntou o que ele entende por jornalismo científico. Como essa especialidade do jornalismo se diferencia do jornalismo em geral?

Rafael: O que eu entendo como jornalismo científico e o que eu considero, é toda aquela reportagem que utiliza um especialista para aprofundar a sua temática. Então eu explico, a gente tem um momento hoje de aumento do preço da carne, né? Então a gente tem matérias econômicas que falam o quanto a carne está aumentando, quantas pessoas estão recorrendo a outras formas de alimentação, algumas até precárias, né? Você vê fila de pessoas querendo pele, querendo o osso, né? O mapa da pobreza, da fome. Mas aí você consegue, no cotidiano, noticiar apenas que as pessoas estão fugindo da carne e recorrendo a outras dietas. Isso é uma matéria tradicional. Agora, se eu pego um especialista para dizer o quanto esse panorama puxa as pessoas para uma alimentação irregular, o quanto esse panorama puxa, tem a ver um cientista social, falar da miséria, falar do mapa da fome, falar da pobreza, eu puxo o economista não no sentido de falar indicadores, mas no sentido social de dizer o quanto… o que impacta o poder de compra, né? Como que é para o cidadão ter aquela mesma verba que a cada mês está comprando menos. Então a partir do momento em que se inclui uma fonte científica, que infelizmente acaba sendo opcional em muitos casos, porque mais uma vez a gente está vivendo uma precarização do jornalismo, né? A imprensa não tá tendo mãos para se aprofundar nas temáticas, esse jornalista acaba sendo científico e isso abre uma grande Caixa de Pandora, porque significa que qualquer tema pode ser científico, literalmente qualquer tema pode ser científico.

Fabíola: Além da reportagem propriamente dita, que dá voz a cientistas, o jornalismo científico também é responsável por informar a população a respeito de políticas e movimentos econômicos que envolvem o desenvolvimento, apoio ou desmonte da ciência no Brasil.  

Flora: Assim fica mais fácil compreender o que o pesquisador de fato está investigando em seu trabalho. E as reflexões proporcionadas por estas observações. Mas antes de comentar sobre os resultados observados, Rafael destaca o motivo de ter escolhido a TV como veículo de informação. 

Rafael: Porque falar de TV, né? A gente fala de internet, a internet realmente revolucionou as comunicações, isso é inegável, mas a gente sabe, ainda tem noção que um meio hoje mais popular, de maior acesso às pessoas, é a televisão. A televisão tem mais de 90% das casas de todo o país, né? Então a televisão chega em muitos lugares que a Internet não chega. Então esse é um dos principais motivos pra se olhar a TV. Porque eu quero olhar para uma comunicação que chega a todos. A internet ainda é muito segmentada e principalmente abarrotada de informação. Quanto mais a gente consome da internet, mais a gente recebe aquilo parecido com que a gente consumiu. Na televisão não tem isso porque eu não consigo escolher o que vai passar, né? A grade é fechada. Eu vou eu vou ligar a TV. Eu vou ter que consumir aquilo, seja eu pobre, rico, do nordeste, do sudeste. 

Flora: E por que especificamente estas duas emissoras, Rede Globo e a Rede Record, entre outras atuantes no Brasil?

Rafael: A escolha da Rede Globo e da Record vem de dois motivos. O primeiro o fator audiência. São as duas principais emissoras do país a respeito de audiência e foram as duas mais consumidas jornalisticamente durante a pandemia, né? Então o primeiro ponto foi audiência. O segundo ponto foi fator político. Então, durante o governo Bolsonaro, você tem pela primeira vez, em décadas, uma mudança da distribuição orçamentária do governo federal, pelo Ministério das Comunicações. Então sai a rede Globo que tradicionalmente era a que recebia a maior verba, inclusive desde os governos PT, desde Fernando Henrique Cardoso, e entra a Record dando o ranking do governo Bolsonaro, isso em 2020, em 2021 ele já viu que não dava para ficar sem a Globo e voltou à Globo na liderança. 

Então, estudar esses veículos foi também para entender o quanto que a verba publicitária impacta no conteúdo desses veículos, né? Então a escolha da Globo foi porque a Globo durante o governo Bolsonaro se posicionou como a grande oposição, né? Tinha embates gigantescos. E a escolha da Record, além de ser a segunda maior audiência, é porque é a primeira em verba. E infelizmente o estudo teste que foi feito com o Domingo Espetacular e com o Fantástico mostrou um cenário preocupante a nível de venda das narrativas governamentais. 

Fabíola: Os resultados revelam que grande parte das reportagens apresentavam temas e informações que priorizavam diferentes narrativas governamentais às quais estavam mais alinhadas. Além do resultado de mudanças no processo de criação de pauta, escolha de fontes e acesso às informações.

Rafael: A partir de julho você tem mudanças significativas em ambas emissoras. A Globo começa a utilizar os dados do consórcio de veículos de imprensa. O consórcio de veículos de imprensa foi uma iniciativa inédita da História da imprensa brasileira. Foi a união de veículos concorrentes para que eles pudessem produzir dados acerca da pandemia a partir do momento que o governo federal estava dificultando o acesso à informação. Então historicamente os dados do Ministério da Saúde, dentro de outras ocorrências públicas, como foi a dengue, com sarampo, era sempre posicionar a imprensa até às 5 horas da tarde para pegar o fechamento dos jornais noturnos. O que o governo Bolsonaro começa a fazer? Ele começa a mudar os horários. Então sai um dia, outro dia não sai, sai assim às cinco, sai às sete, sai às dez, né? A gota d’água foi quando ele muda oficialmente essas informações para as 10 da noite e o presidente Jair Bolsonaro tuíta “Acabou o Jornal Nacional”. Acabou porque não vai ter os dados oficiais da covid-19 atualizados naquele dia.

Flora: Rafael também relembrou que o sistema de informações do Sistema Único de Saúde saiu do ar em diversos momentos durante o período crítico da pandemia, dificultando o acesso à realidade dos números e, consequentemente, impossibilitando a análise dos dados. Grupos de imprensa tiveram que criar alternativas de acesso para garantir sua autonomia e cumprir o papel de informar a população. E parece que essa medida gerou uma mudança importante na forma como as informações passaram a ser reportadas nos telejornais analisados pelo pesquisador.

Rafael:  Domingo Espetacular para você ter ideia, eu estou falando de um programa de 3 horas de duração. E teve edições que o que foi destinado à pandemia foi 40 segundos, 30 segundos. Foi falar os dados consolidados pelo Ministério da Saúde. Porque como era uma emissora com apoio governamental, lógico que tinha acesso aos dados do Ministério da Saúde, então se falavam aqueles dados sem colocar interpretação. Então era um âncora que falava assim “ah, a gente teve tantos mortos, tantos recuperados, tantos de internação, total de casos” e você não sabia de uma semana para a outra se aumentava, e diminuía, você não tinha interpretação dessa informação. A partir do momento em que a Globo tem o consórcio de veículos de imprensa, ela fala abertamente para o público “olha a gente conversou com os cientistas e a gente pensou em uma metodologia chamada média móvel”. A gente começa a falar dessa metodologia, então começa a trazer para as pessoas o que subiu, o que que caiu, começa a interpretar os estados que têm mais casos, os que têm menos casos, começa a trazer uma metodologia científica, um boletim, que na época inclusive dos dados do Ministério da Saúde que chegavam a ter de 30 a 40 segundos passaram a ter de 22 minutos a 5 minutos. Passaram a ter cerca de oito gráficos. Então você tem uma mudança significativa na interpretação da informação.

Fabíola: E pra finalizar a nossa conversa pedi para o Rafael contar um pouco sobre as reflexões que podemos fazer a respeito do futuro do jornalismo da ciência, a partir da análise feita por ele de que no geral a percepção de ciência é efêmera.

Rafael:  E a gente viu que a consciência das pessoas a respeito da ciência é muito efêmera, né? É muito rápida. Isso a gente pode ver até pela reflexão nas urnas, né? Incrível que a gente teve grandes nomes responsáveis pela precarização da ciência no período de pandemia sendo eleitos. E sempre eleitos com uma quantidade significativa de votos. E é lógico que a gente precisa puxar o papel da imprensa a respeito disso, porque é um grande desafio na verdade. As pessoas ficaram saturadas da pandemia, as pessoas não aguentavam mais ouvir, a gente não aguentava mais ouvir, ninguém aguenta ouvir mais tragédia o tempo todo. E quando a gente tem um governo autoritário que diminui ainda os canais de acesso à população, então a gente tem desde o governo Temer o fechamento em massa de assembléias públicas, de conselhos públicos, de audiências em que a população se inscrevia, para acompanhar determinados assuntos. O papel da imprensa é ainda maior, porque a participação pública, a participação social das pessoas, você vê o projeto diminuir. Então eu acho que a imprensa, eu sinto que ela tá nesse gosto amargo pós-eleição, de ter percebido que alguns movimentos de conscientização funcionaram mas nem todos, né? 

Fabíola: Pensar a ciência em toda a sua complexidade e multidisciplinaridade deve ser um compromisso de todos e principalmente daqueles que se dedicam a ela. Além disso é um compromisso de todos também, criar meios para que a ciência seja praticada em benefício de todos, humanos e não humanos. A ciência é um bem comum.  

Fabíola: Este foi o terceiro episódio de uma série que fala sobre Governança, Riscos e Comunicação. Assuntos pesquisados pelo grupo CIRIS, criado em 2020 com o objetivo de pesquisar e propor reflexões sobre o desenvolvimento destas áreas no Brasil. A divulgação científica dos trabalhos deste grupo é apoiada pela FAPESP através do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico, o Mídia Ciência. 

Flora: Esse episódio foi apresentado por mim, Flora Villas e pela Fabíola Junqueira, também responsável pela pesquisa e elaboração do roteiro. 

Fabíola: O Yama Chiodi fez a edição deste episódio e a trilha sonora é do Felipe dos Reis Campos.

Fabíola: A revisão do roteiro foi feita pela coordenadora do Oxigênio, a Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. 

Flora: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais, estamos no Instagram, no Facebook e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”. Para acessar o roteiro deste episódio e as referências mencionadas aqui basta acessar o nosso site. 

Fabíola: Deixe seus comentários em nossas redes sociais e obrigada por ouvir.  Até o próximo episódio!

E se você quiser saber mais sobre temas relacionados à Governança, Risco e Comunicação de Ciência e Tecnologia, ouça os dois primeiros episódios da nossa série:

https://www.oxigenio.comciencia.br/154-emergencias-uma-serie-sobre-governanca-risco-e-comunicacao/

https://www.oxigenio.comciencia.br/158-emergencias-uma-serie-sobre-governanca-risco-e-comunicacao-ep-2-obstaculos-e-perspectivas-para-as-ciencias/

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