#144 – Série cidades – Astrocity: Os efeitos da poluição luminosa para a astronomia
maio 20, 2022

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O primeiro episódio da série Cidades trata do tema da Poluição Luminosa, fenômeno causado pelo excesso de luzes acesas nas casas, edifícios, ruas ou escape de iluminação e que impede que se veja o céu noturno e os astros. A poluição luminosa pode afetar a saúde humana, colocar em risco a biodiversidade e ainda gera custos desnecessários para as cidades.

Este é o primeiro episódio do Astrocity, um podcast que está sendo criado por alunas do curso de Especialização em Jornalismo Científico, do Labjor/Unicamp, associado ao Oxigênio.

Tânia Dominici: Tem um fato que aconteceu, um blackout na Califórnia em 1954 e aí os telefones de emergência começaram a ser invadidos pelas pessoas ligando que tinha uma coisa no céu, que tinha um negócio no céu. E era a Via Láctea, né? As luzes da cidade tinham apagado por causa do blackout e as pessoas estavam vendo ali o centro da nossa galáxia, que é onde tem um adensamento maior de estrelas e regiões de gás, de poeira. As pessoas nunca tinham visto e acharam que aquilo era um óvni, um efeito perigoso. A gente perdeu a conexão com o céu noturno que foi base do nosso desenvolvimento tecnológico: contar o tempo, se localizar, começar a pensar ambientes com processos físicos que não são reprodutíveis no planeta pra entender melhor a física do universo. E a gente tá se desconectando disso.

Dimítria Coutinho: Uma das grandes culpadas por essa nossa desconexão com o céu noturno é a poluição. Mas não é o tipo de poluição que a gente está mais acostumado a ouvir, como das águas, do ar ou até a visual. Aqui, estamos falando da poluição luminosa. Você já ouviu esse termo? É difícil pensar que a luz pode ser um poluente, né?

Greta Garcia : É difícil mesmo… mas na prática você, que mora em uma metrópole, já olhou pro céu à noite e só viu escuridão? E quando viajou para alguma cidade no interior do seu estado, conseguiu observar o céu estrelado?

Dimitria: E você, que vive em cidades menores e afastadas de grandes centros urbanos, que está acostumado a observar o céu iluminado pelos astros todas as noites: já viajou para alguma metrópole e, quando olhou para cima, não enxergou nada além de escuridão?

Tânia Dominici: A poluição Luminosa é toda luz utilizada para além do seu objetivo. Então se você vai iluminar um local, mas essa luz escapa para outras para as redondezas ou se essa luz é excessiva para sua aplicação, você provoca a poluição Luminosa. Em particular, a gente na Astronomia se preocupa com a luz que é emitida acima da Linha do Horizonte. Então aquela luz artificial que vai na direção do céu, que não tem utilidade nenhuma para vida humana, mas que apaga as estrelas, apaga a visão do céu noturno.

Dimítria: Eu sou Dimítria Coutinho.

Greta: E eu Greta Garcia.

Dimitria: Você está ouvindo o primeiro episódio do Astrocity, um podcast sobre a astronomia nas cidades. Bem-vindo!

Greta: No episódio de hoje você vai entender porque a poluição luminosa é um problema para a observação do céu noturno.

Dimitria: Como você ouviu agora na fala da Tânia Dominici, astrofísica e pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, o uso incorreto de iluminação artificial nas cidades interfere na observação do céu noturno e, consequentemente, no estudo dos astros.

Thiago Gonçalves: Eu acho que, de uma forma geral, em termos de tipos de ciência, todas as áreas da astronomia são afetadas, porque você tá apagando tudo que tá fora da atmosfera, que é justamente o objeto de estudo da astronomia.

Greta: Quem acabou de falar é o Thiago Gonçalves, astrofísico da Sociedade Astrológica Brasileira. Esse impacto que ele mencionou aparece também num estudo publicado na revista Science em 2016, que estimou que o excesso de luz artificial durante a noite impede um terço da população mundial de enxergar a Via Láctea. Mas ter céus menos estrelados é apenas um dos prejuízos causados pela poluição luminosa.

Dimítria: Para a sociedade, a poluição luminosa afeta a saúde humana porque a iluminação artificial interfere na produção de melatonina, hormônio que ajuda a promover uma boa noite de sono; além de trazer prejuízos econômicos na administração pública, uma vez que grande parte da energia utilizada para iluminar os ambientes externos é desperdiçada por ser direcionada incorretamente.

Para o meio ambiente, coloca em risco a biodiversidade, por alterar o ciclo natural de vida das plantas e animais. Estudos, como uma pesquisa de 2020 da Universidade Tufts [tãfitis], nos Estados Unidos, mostram que milhares de espécies de vagalumes, por exemplo, estão mais próximas da extinção por conta da iluminação artificial, que atrapalha seus rituais de acasalamento.

Greta: Esse é um tema bastante abrangente, porque se conecta com diversas áreas da nossa vida. Mas o nosso foco hoje é entender como a poluição luminosa prejudica os estudos de astronomia.

Thiago Gonçalves: Mas a gente pode pensar também do ponto de vista do tipo de observação que se faz, de qual região do espectro eletromagnético você tá observando. Quer dizer, se você tá fazendo observações com luz visível, o tipo de luz que nosso olho consegue enxergar, em geral essas observações vão ser as mais afetadas pela poluição Luminosa, justamente porque esse problema com iluminação pública. Essa iluminação vai competir com aquela luz fraquinha que tá chegando da galáxia, da estrela.

É como se você tivesse vendo, digamos, um vagalume no céu escuro ou um vagalume na frente de uma televisão de LED.

Greta: O Thiago também explicou pra gente que existe uma escala, chamada Escala de Bortle (Bortol), que é usada para que os astrônomos consigam quantificar a qualidade do céu para observação em um lugar específico. Ela vai de 1 a 9, sendo 1 um céu excelente, bem escuro, onde é possível enxergar as estrelas mais distantes; isso acontece por conta do contraste que se torna mais acentuado; e 9 sendo o pior lugar possível para você colocar um Telescópio – como o centro de Tóquio ou a cidade de Nova York, por exemplo.

Dimítria: Essa escala foi criada e publicada pelo astrônomo amador John Bortle em 2001, justamente para auxiliar seus colegas de observação, já que muitos dos astrônomos amadores moram em cidades grandes e se locomovem, na medida do possível, para lugares onde o céu é mais escuro. Hoje em dia, existem alguns aplicativos, como o Dark Sky Meter e o Loss of the Night, que permitem que qualquer usuário com um smartphone possa mensurar o nível de brilho no céu e compartilhar com cientistas.

Greta: Outra medida que ajuda a mensurar o impacto e nível da poluição luminosa é o Sky Quality Meter, um programa que permite que cientistas mapeiem cidades em diferentes lugares para identificar pontos de escuridão e medir as alterações desses pontos com o tempo.

Dimítria: É com base nessas informações que se definem também onde novos observatórios serão instalados. Por isso, eles quase sempre são construídos em locais afastados de centros urbanos, muitas vezes inóspitos, contando que a separação geográfica poderia barrar a poluição luminosa.

Greta: Então dá pra dizer que tudo o que resta pros astrônomos, amadores e profissionais, é simplesmente fugir das grandes cidades?

Dimítria: Ou utilizar os bancos de imagens de satélite para realizar seus estudos, Fulana 2. Existe um banco de dados enorme com imagens digitalizadas que pode ser usado profissionalmente, mas mesmo essa opção ainda não resolve o problema. E é por isso que os astrônomos e os cientistas continuam investindo na construção de observatórios cada vez mais avançados e mais distantes das áreas muito iluminadas. E nesses observatórios dá para ver constelações que eram invisíveis há 10 anos.

Mas essas saídas não resolvem a questão da poluição luminosa nas cidades. Para isso o mais importante é o avanço de medidas tomadas a nível governamental e também individual. No Brasil, a legislação sobre o tema ainda é escassa se comparada com outros assuntos ambientais já regulamentados. Mas já existem iniciativas. Em Campinas, por exemplo, a lei municipal 10.850 de 2001, criou uma Área de Proteção Ambiental onde se localiza o Observatório Municipal de Campinas e o Museu Aberto de Astronomia, no intuito de garantir condições de visibilidade através da norma municipal.

Thiago Gonçalves: No Havaí existe uma regulamentação sobre a iluminação pública, porque ainda que você esteja no topo da montanha, você ainda tá numa ilha habitada. É uma das ilhas menos habitadas do arquipélago, mas ainda assim você consegue ver alguma iluminação do alto da montanha. E existe uma regulamentação na ilha para que se use apenas lâmpadas de sódio, que são lâmpadas que protegem um pouco mais, elas não contaminam tanto, elas não produzem tanta poluição Luminosa e isso ajuda muito. Uma parceria do governo local com os observatórios que impede um pouco essa poluição Luminosa, que isso cresça de uma maneira muito grave e que permita a continuação dessas observações.

Greta: A legislação é necessária para direcionar ações porque, mesmo que haja uma conscientização para que se utilize a luz artificial de forma estratégica e sustentável, é através da regulamentação que a população pode ser orientada sobre as melhores possibilidades. No Brasil, apesar de lenta, essa discussão também acontece a nível federal.

Tânia Dominici: Hoje a gente tem no país duas propostas de projeto de lei tramitando na Câmara dos Deputados que são importantes nesse sentido. Uma que propõe a criação de uma certificação de áreas dos Céus escuros, própria para o Brasil, existem algumas internacionais, mas essa legislação ela propõe alguma coisa mais simples dentro do contexto Nacional.  Existe um outro projeto de lei mais complexo que coloca a poluição Luminosa, como crime ambiental a legislação ela é fundamental.

Dimítria: Essa discussão é algo recente. A preocupação com os céus e a conservação da visão noturna a nível governamental e estadual ainda precisa se desenvolver mais, algo que só será alcançado com mais conscientização social sobre o problema.

Thiago Gonçalves: Eu acho que esse é o problema mais grave justamente, porque quando você sai da terra você não tem mais nenhum tipo de controle governamental. E você tem um algo análogo ao velho oeste nos Estados Unidos no século 19, onde quem chegar lá primeiro ganha. E isso é muito prejudicial, porque não tem sem esse controle, você não tem nem como regulamentar isso. Se alguém quiser colocar um outdoor no espaço, se tiver o dinheiro para isso ele vai conseguir. A tecnologia de telecomunicações e a tecnologia de digamos aeroespacial, ela tá avançando muito rapidamente, muito mais rapidamente do que as regulamentações que poderiam controlar esse tipo de atividade.

Dimítria: Apesar deste vazio ao redor da legislação sobre a proteção e conservação da visão noturna, temos meios de aplicar mudanças aqui na Terra que teriam um grande efeito no caminho para solucionar esta poluição. Uma das mais simples seria a aplicação de uma proteção nos postes de luz de modo a evitar que a luz escape para cima, fazendo com que só fosse visível a porção de luz direcionada ao solo, enquanto a fonte seria protegida por uma cobertura, como um holofote de teatro.

Thiago Gonçalves: Isso é muito importante, você tem que jogar a luz sempre para baixo, porque se você passa do Horizonte, digamos que você tá jogando a luz para cima e não para baixo, você não tá mais iluminando nada de uma maneira que seja eficiente. Você tá simplesmente desperdiçando essa energia que você tá produzindo e ao mesmo tempo, você tá produzindo muito mais informação Luminosa, porque essa luz jogada para cima vai ser espalhada pela atmosfera contaminando as observações astronômicas.

Dimítria: Outra preocupação em relação à iluminação artificial é o crescente uso de lâmpadas de LED. Apesar de ser melhor para o ambiente por economizar energia, ter uma vida útil maior do que as amarelas de tungstênio e não usar metais pesados em sua composição, a luz azul emitida por essas lâmpadas funciona como um esteróide para a poluição luminosa.
Greta: Ainda sobre as lâmpadas de LED, um estudo da Universidade de Exeter, na Inglaterra, estima que, entre os anos de 1997 e 2017, a poluição luminosa cresceu ao menos 49% em todo o mundo. E os pesquisadores temem que essa estimativa ainda esteja otimista demais. Isso porque os sensores de satélite que são usados para o estudo, não conseguem captar a tal da luz azul, que é emitida em maior quantidade pelo LED do que pelas tecnologias de iluminação mais antigas.

Thiago Gonçalves: Eles são muito brancos, muito azuis e isso é uma coisa que contribui muito. Esse tipo de luz. Eles se espalham muito mais e produzem muito mais poluição.

Dimítria: Para um uso mais adequado da iluminação, a União Astronômica Internacional recomenda usar luz âmbar ao invés da branca, reduzir a potência das lâmpadas, diminuir a luz dirigida para cima e plantar árvores entre os postes de iluminação pública, criando obstáculos à dispersão da luz.

Greta: Esta poluição luminosa também se relaciona bastante com a lógica do sistema político atual, né, que incentiva a produtividade ininterrupta e faz com que o período da noite seja também um período possível para a jornada de trabalho. Nesse sistema, a escuridão é vista como um obstáculo e é combatida por meio da iluminação artificial, que acaba promovendo o aumento das instalações de luzes em ambientes externos e internos.

Tânia Dominici: A gente tá negando a noite, nós estamos nos acostumando a ter a todo momento uma iluminação. Ambientes iluminados tentando mimetizar a luz do sol, a luz do ambiente diurno. Isso vem por conta dessas demandas de produzir e consumir 24 horas por dia. Existe um sistema cobrando da gente produção e consumo 24 horas por dia. E nisso as pessoas elas acabam naturalizando esse excesso de iluminação. Precisamos reconstruir essa relação com a noite, né? Tentar reverter esse processo de negação social mesmo do ambiente noturno e mostrar [e] convencer às pessoas de que a boa iluminação é uma iluminação com contrastes, não é aquela iluminação super ofuscante com luzes muito fortes.

Dimítria:  Bom, a gente tá quase chegando ao final do episódio, mas é importante ressaltar que o céu escuro é um recurso científico crucial para entender os mistérios do universo e uma parte importante do patrimônio cultural e natural de todas as civilizações.

Thiago Gonçalves: Eu torço para que as pessoas que estão escutando esse podcast agora possam aproveitar os céus mais escuros porque os céus mais os mais escuros são os mais bonitos. Eu acho que essa é uma experiência, inclusive que como alguém que trabalha com astronomia é uma experiência que aproxima muito a gente dos astros, é muito legal, então a gente pode principalmente aqui do Brasil a gente consegue ver as galáxias, as nuvens Magalhães que são galáxias próximas que aparece como nebulosidades. Isso é absolutamente impossível se você mora em São Paulo ou Rio de Janeiro, você nunca vai conseguir ver isso, mas se você se afastar, se você for para um lugar de praia, sem muita poluição Luminosa, se você for para um parque você vai conseguir ver a Via Láctea como uma grande listra branca no céu e é mais ao sul da Via Láctea.

Greta: Sem os céus escuros, a observação de corpos celestes se torna ainda mais difícil. Com o avanço rápido e inconsequente do uso de iluminação artificial nas cidades, até mesmo os observatórios que estão nos lugares mais remotos, estão sendo ameaçados pela luz que escapa das metrópoles e vilas. Mas, além da luz que vem da Terra, existem outros vilões que ameaçam a observação do céu noturno.

Dimítria: Como os satélites Starlink, da SpaceX. Com mais de 1800 unidades em órbita, os satélites deixaram mais de cinco mil rastros luminosos em imagens captadas por instrumentos no Observatório Palomar, localizado em San Diego, na Califórnia.

Greta: E você já imaginou que os satélites poderiam prejudicar, de alguma forma, a astronomia? Para entender melhor como isso acontece, fica ligado no próximo episódio do Astrocity! Tchauzinho, e até breve! 🙂

Dimítria: Esse episódio foi apresentado por mim, Dimítria Coutinho, e pela Greta Garcia. A revisão do roteiro foi feita por nós, pela Bárbara Fernandes, Juliana Stern, Bárbara Paro, e pela coordenadora do Oxigênio, Simone Pallone, do Labjor/Unicamp. A edição é minha e as entrevistas foram realizadas pela Bárbara Fernandes e pela Bárbara Paro. A trilha sonora é do repositório Purple Planet.

Greta: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, no facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento, e no Instagram e no Twitter, é só procurar por “Oxigênio Podcast”.

Dimítria: Você pode deixar a sua opinião sobre este programa comentando na plataforma de streaming de sua escolha. Até o próximo episódio!

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