#121 Série Casa de Orates – ep. 4 – Alerta de tsunami
fev 4, 2021

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No quarto episódio do Casa de Orates, falamos sobre como a pandemia do novo coronavírus afetou e está afetando a nossa saúde mental. Os especialistas alertam para um tsunami de transtornos mentais decorrentes desse caos que estamos vivendo e que tem despertado inúmeros sentimentos difíceis de lidar, como medo, raiva, estresse e solidão.

Além do medo da doença, a pandemia nos trouxe inúmeros desafios, como o trabalho remoto, a suspensão de aulas e de atividades presenciais, a deterioração da situação socioeconômica com perda do emprego ou redução de salário, entre muitos outros.

Conversamos com Caio Maximino, professor de psicologia experimental da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, que integra o Núcleo de Estudos Psicossociais em Saúde da universidade, e com Rosana Onocko, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e coordenadora da residência multiprofissional em saúde mental.

Eles falaram sobre os efeitos do distanciamento físico na saúde mental e deram dicas do que fazer se percebermos que a sobrecarga de emoções está nos afetando. Também lembraram dos profissionais que são mais afetados emocionalmente pela pandemia e explicaram as possíveis razões que levam algumas pessoas a furar a quarentena e a negar a relevância do coronavírus.

Esse episódio contou com sonoras dos telejornais da TV Cultura, da TV Brasil, da Record e da Bandnews, e foram retiradas de seus canais no YouTube. Os depoimentos são de amigos e familiares, que contaram um pouco do que viveram durante a pandemia. 

O episódio “Cientistas e filhos em tempos pandêmicos” citado neste programa está disponível em: <https://oxigenio.comciencia.br/104-tematico-cientistas-e-filhos-em-tempos-pandemicos/>. 

Algumas sugestões de serviços de apoio psicológico são:

  • Página do Facebook Cuidando de você na pandemia, disponível em: <https://www.facebook.com/cuidandodevocenapandemia>
  • Humanidades 2020, vários psicólogos se uniram para construir um canal de atendimento aberto e direto. Os voluntários do projeto disponibilizam seus números de telefone e quem quiser ser atendido pode falar direto com eles por WhatsApp. Ana Luiza Novis, (21) 99609-9346, e a Laura Machado, (21) 98820-6989, são as psicólogas responsáveis.
  • Plantão Psicológico Online do Núcleo de Estudo, Pesquisa e Atendimento em Psicologia da Universidade Metodista (NEPAP). Disponível em: <https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLScg2WAK8OMqeZpamhTZgistWkz2bU5vpsciwI6p9cWorWzB3g/viewform>.
  • O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Disponível em: <https://www.cvv.org.br/>.

Créditos da imagem: Mark Harpur (@luckybeanz/Unsplash)

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Roteiro

ROBERTA BUENO: Oi. Antes de começar eu preciso dar um recado: nesse episódio, a gente vai tratar de temas sensíveis como luto e perda de pessoas queridas. Então, se você não se sente confortável com esses assuntos, talvez esse episódio não seja para você. 

Manchetes

Informação importante: a OMS acaba de declarar pandemia por causa do coronavírus! Quem tá acompanhando e tem mais informações é a editora internacional aquí da Band News, Beatriz Ferreti. Fala Beatriz!

Olá, boa tarde! Estamos de volta com o Governo Agora. A Organização Mundial de Saúde declarou hoje pandemia do novo coronavírus. Segundo a a OMS, são mais de 118 mil casos da doença no mundo.

O avanço do coronavírus pelo mundo fez a Organização Mundial da Saúde declarar a doença como pandemia. Segundo a OMS, o número de infectados, mortes e países atingidos deve aumentar…

ANA AUGUSTA: No momento em que escutou esse anúncio, lá no dia 11 de março de 2020, você imaginou tudo o que viria pela frente? Eu, com certeza, não. Trabalho na Unicamp e, quando as atividades presenciais foram suspensas, um dia depois desse anúncio, eu até comentei com meus colegas “ah, dia 30 a gente tá de volta”. Eu tava tão otimista que naquela mesma semana ainda viajei pra despedida de solteira da Ane, aquela minha amiga que vocês conheceram no primeiro episódio da série. 

ROBERTA BUENO: Hoje, quase onze meses depois, a gente sabe o que aconteceu. Na verdade, o que ainda tá acontecendo. Nossa vida virou de ponta-cabeça. Diminuímos os contatos sociais, começamos a usar máscaras, nossa casa virou lugar de trabalho, estudo, comida, descanso – tudo junto e misturado – redobramos os cuidados com a higiene – quem aí não se pegou lavando pacote de batata palha?

ANA AUGUSTA: Sem falar na preocupação em ficar doente, de passar o vírus pra outra pessoa sem saber, a incerteza do que vai acontecer amanhã…. E pra piorar, uma crise política no meio da maior ameaça de saúde do século! É pra tirar qualquer um fora do eixo. Todo esse caos acabou nos trazendo muitos sentimentos difíceis de lidar, como medo, raiva, estresse, solidão… 

ROBERTA BUENO: Especialistas alertam para um “tsunami” de problemas de saúde mental devido à pandemia de coronavírus. E sim, a gente sabe que tá todo mundo cansado de ouvir falar da pandemia. Quando planejamos a série Casa de Orates, esse episódio nem existia. Mas não tinha como deixar esse assunto de fora. Eu sou Roberta Bueno.

ANA AUGUSTA: E eu sou Ana Augusta Xavier, e o programa de hoje é sobre o que a pandemia vem fazendo e ainda vai fazer com a nossa cabeça.

ROSANA: As pessoas também têm diferenças, eu vou chamar assim, na sua capacidade de lidar com a adversidade, né. Tem pessoas que são mais fortes, tem pessoas que são mais flexíveis, tem pessoas que precisam de um mundo mais ordenado pra aguentar é… os trancos da vida, então cada um viveu a partir do que essa pessoa costuma viver, né, e muitas famílias se viram enfrentando desafios extras né, que são por exemplo, volta ao convívio de pais e filhos que já não conviviam, porque os filhos tinham saído de casa e voltaram, ou a situação socioeconômica muito deteriorada por causa da perda do emprego e da redução de salário de algumas pessoas, então de fato é… tratam-se de sofrimentos  que vem como de fora pra dentro, podemos dizer assim né, que não tem a ver com a forma da pessoa viver mas como é conviver com aquilo que de fato foi uma sobrecarga imensa né, pra todos nós, né, de alguma forma.

ROBERTA BUENO: Essa que você ouviu é a Rosana Onocko, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, e coordenadora da residência multiprofissional em saúde mental. Ela disse que todos nós estamos sobrecarregados na pandemia, mas, é claro, alguns mais sobrecarregados que outros. 

ANA AUGUSTA: Como é o caso de muitas mulheres, que acumularam o home office, o cuidado das crianças que não estão indo pra escola, e os afazeres domésticos. Nós falamos um pouco sobre isso no episódio “Cientistas e filhos em tempos pandêmicos”. A gente vai deixar o link dele na descrição. 

ROBERTA BUENO: E essa sobrecarga tem afetado até o nosso subconsciente. O Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte fez um estudo que avaliou sonhos de 67 pessoas antes e durante a pandemia.

ANA AUGUSTA: Ao contarem os sonhos que tiveram durante a pandemia, as pessoas utilizaram mais palavras ligadas à “raiva” e à “tristeza”, e termos parecidos com “contaminação” e “limpeza”. Você também já sonhou que estava sem máscara no meio de uma multidão?

ROBERTA BUENO: Para os pesquisadores, os sonhos podem ser um alerta de sofrimento mental durante períodos de estresse. E os sonhos durante a pandemia confirmaram isso, refletindo o medo da contaminação, as mudanças importantes na rotina e o distanciamento físico.

ANA AUGUSTA: Caio Maximino é professor de psicologia experimental da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Ele integra o Núcleo de Estudos Psicossociais em Saúde da universidade. O seu grupo de pesquisa já estudava como o isolamento podia afetar comportamentos, mas trabalhava com modelos animais. Com a chegada da pandemia, o Caio e sua equipe resolveram expandir esse estudo para o comportamento humano.

CAIO: Então surgiu a ideia da gente tentar entender um pouquinho melhor algumas dessas questões sobre a saúde mental nesse momento da pandemia, e aí a gente resolveu iniciar uma pesquisa sobre, sobre isso, né. 

Tentar entender a relação entre o comportamento social, os elementos sociais e psicossociais e o funcionamento cerebral né. Se por um lado, as relações sociais, as relações interpessoais, a proximidade com os outros, os afetos, podem ser protetores, por outro, a sua ausência poderia ser uma coisa, que seria uma espécie de fator de risco pra uma série de transtornos.

ROBERTA BUENO: O objetivo do estudo era avaliar se a solidão estaria relacionada com o aumento de casos de transtornos mentais na população.

CAIO: Então, primeira coisa que a gente observou, que as pessoas que estavam em maior isolamento apresentavam maior sofrimento psicológico. Segundo, que isso era sim, em grande parte, explicado pela solidão, tá. Então pessoas que estavam mais, em maior isolamento, se sentiam mais solitárias e esse se sentir mais solitário produzia esse sofrimento psicológico.

ANA AUGUSTA: E como diz o Caio, o isolamento social é muito complexo. Não dá pra negar que ele trouxe um impacto na saúde mental. Mas isso não significa que a saída seja romper o isolamento. 

CAIO: O isolamento, ele é um isolamento físico, não precisa ser um isolamento social, que a sociabilidade está muito além das pessoas que estão do teu lado. E tentar buscar aquelas saídas que são, acima de tudo, saídas que não são individualizantes.

Então, construir uma rede de solidariedade em que se possa conversar sobre essas questões, não é meramente buscar suporte social no sentido de conversar com os amigos, mas conversar com os amigos sobre isso, né? Amigos, família, etc. Pode ser um elemento fundamental.

Saídas que não são, “preciso cuidar da minha saúde mental, então vou pra rave não sei aonde”. E evitar também essas falsas assimetrias. “Eu tô trabalhando”, enfim: a gente trabalhar com redes de solidariedade de apoio mútuo. Essas redes de solidariedade de apoio mútuo são: rede de atenção psicossocial por um lado, e as redes que você mesmo cria, que você mesmo constrói. Se não conseguiu criar, não conseguiu construir, não tem um problema, crie e constrói de novo. 

DEPOIMENTO 1: Eu moro sozinha já, há muitos anos, e… e nunca imaginei que eu ia ter que ficar tanto tempo sozinha mesmo né, igual eu fiquei nessa quarentena, na minha casa. É… Lá em meados de março, quando a minha empresa estipulou o home office é… eu me vi tendo que fazer tudo sozinha em casa, que eu sempre tive alguma ajuda, ou eu comia fora, ou eu tinha o o .. uma ajuda de alguém pra arrumar a casa e eu de repente, como todo mundo, é… tive que fazer tudo sozinha. Então quando eu vi é.. eu tava ficando muito cansada a semana inteira é… no início eu tava indo bem, mas de repente eu percebi que eu comecei a ter insônia, que era uma coisa que eu nunca tinha tido na vida, eu sempre tive um sono muito bom e muito fácil e isso me levantou um pouquinho uma bandeira amarela assim, né, que que tá acontecendo. Aqueles encontros de Zoom né, ajudavam, com os amigos, então eu acabava tendo com quem compartilhar um pouco durante esses encontros mas no dia a dia eu não tinha. Não tinha aquela troca diária do trabalho, aquela troca diária com o pessoal da academia, então é… o dia a dia ficou muito complicado de compartilhar né, as coisas e as angústias que tavam surgindo naquela pandemia. E aí teve um momento é.. que eu resolvi encontrar algumas amigas que também moram sozinha, A gente passou dois dias juntas e no dia seguinte que eu cheguei em casa e dormi eu não tive insônia, e foi impressionante assim. É… eu nesse momento, é, eu entendi muito bem o valor do outro na nossa vida né, de quanto o outro, o social, o quanto ter uma companhia é importante pra pra gente né. E aí, teve um outro momento que foi foi bem bem crítico durante a pandemia que foi quando eu decidi me mudar. Eu morava num apartamento de quarto sala, e como eu ficava muito tempo em casa, tudo começou a me incomodar, então o calor começou a me incomodar, é… o espaço pequeno, pra ser um espaço de trabalho e casa, começou a me incomodar, e eu resolvi procurar um lugar maior. Só que dessa vez eu tive que fazer a mudança sozinha, não podia ter nenhuma ajuda né. Então é… eu resolvi fazer mesmo assim, achei que ia ser, ia tirar de letra, mas um dia antes da mudança eu vi que não era bem assim. Eu tive uma crise de ansiedade, eu eu tive uma crise de choro que só parou uma semana depois. Foi uma crise que eu não sabia o que fazer, de medo, de insegurança, e nesse momento eu não tive outra alternativa a não ser pedir ajuda. Aí eu pedi ajuda profissional né, com a minha terapeuta que me ajudou bastante nesse momento e pedi ajuda pros amigos, que acabaram se oferecendo e correndo um certo risco pra pra poder me ajudar nesse processo de mudança, e foi é… inexplicável a ajuda deles, o quanto foi bom pra mim a ajuda deles, que nao sei nem se eu conseguiria fazer sem eles, então mais uma vez eu que vi a importância do outro na nossa vida né. 

ROBERTA BUENO: Para algumas pessoas, falar com os amigos e familiares pelo computador ou celular não resolve o problema. Falta o contato físico, o abraço, o olho no olho, o sorriso. E quando esses elementos faltam por muito tempo, a tristeza e a ansiedade vão crescendo.

ANA AUGUSTA: Na minha conversa com a Rosana Onocko, eu perguntei quando a gente deve procurar ajuda profissional, como um psicólogo, pra nos ajudar a enfrentar a solidão e todos os sentimentos que surgiram durante a pandemia. 

ROSANA: É, a linha divisória Ana é bem, bem tênue né, então eu diria assim, que a pessoa que tá sofrendo muito, na dúvida, procure algum espaço de ajuda porque aí o profissional que o receba vai conseguir orientar se se trata de iniciar um tratamento, ou se esse é simplesmente às vezes um espaço de desabafo, contenção, que a pessoa precisa, né.

ANA AUGUSTA: Isso aconteceu comigo. Não dei conta de aguentar tudo sozinha e fui procurar ajuda durante a pandemia,  depois de quase dez anos sem acompanhamento psicológico.

ROBERTA BUENO: E se você acompanha a gente, sabe que eu já fazia terapia antes da pandemia, porque contei um pouco da minha história no segundo episódio. A única diferença é que, por conta do distanciamento social, minhas sessões tão acontecendo de forma virtual. 

ANA AUGUSTA: Os atendimentos virtuais são permitidos pelo Conselho Federal de Psicologia desde 2018, mas se popularizaram mesmo agora, com a pandemia. Vários canais de escuta e acolhimento psicológico online foram criados pra ajudar as pessoas a enfrentarem o período de isolamento e todas as suas consequências. 

ROBERTA BUENO: A maioria desses serviços é gratuita, e a gente vai deixar o link de alguns deles na descrição do episódio, pra quem tiver interessado em buscar ajuda. A Rosana nos contou que o pessoal da Unicamp também se organizou pra oferecer espaços de apoio.

ROSANA: Durante o tempo agora da pandemia aqui na Unicamp a gente construiu vários dispositivos de escuta e de acolhimento virtual,  eu sou do departamento de saúde coletiva né,  alguns desses é espaços de cuidado foram organizados conjuntamente com o pessoal do departamento da psiquiatria para os trabalhadores, especificamente para os trabalhadores do HC e do CAISM, e a gente, pela nossa residência também organizou um serviço telefônico, por ligações a cobrar, pras pessoas que estão em casa, ou esperando resultado de teste ou suspeitando que estavam com covid e tavam com muito medo e tal… e alguns desses atendimentos acabaram se desdobrando em atendimentos que ficaram ajudando as pessoas a transitar o processo do luto né, que também foi uma questão que apareceu muito.

ANA AUGUSTA: O luto… Todos nós acabamos vivendo algum tipo de luto durante a pandemia. Mas o luto relacionado à perda de entes queridos foi ainda mais dolorido nesse tempo, já que os rituais de despedida mudaram. Os velórios foram reduzidos ou cancelados e muitos enterros aconteceram sem o acompanhamento dos familiares e amigos. 

ROSANA: O Freud dizia que o luto era um trabalho, ele chamava assim “o trabalho do luto” então se ele usou a palavra trabalho é porque havia todo um processo a ser transitado pra que a gente possa aceitar né, a ideia de perder alguém ou algo muito querido. Ah, o mais grave claro sempre se deu sobre as pessoas que perderam seus seres queridos, mas teve também situações de luto de pessoas que perderam o emprego, que perderam vida social, que perderam rede de amigos, indiretamente essas são outras formas de luto. E e a sociedade, a cultura humana inventou todos esses rituais, vai variar, e agora depende das religiões, das crenças de cada pessoa, mas assim, em qualquer e toda sociedade humana você percebe que existem rituais para o luto, né, para se despedir dos entes queridos que morre, e essa tradição, essa possibilidade de suporte, de cuidado, que é comunitário, que é afetivo da rede de afetos de todas as pessoas se viu totalmente é… reduzido. Então a capacidade de nos apoiar, de construir conosco, a nossa resiliência pra atravessar essas experiências tão difíceis se viu muito diminuída.

ROBERTA BUENO: Sozinhas e distantes, algumas pessoas começam a negar essa realidade da pandemia. Muitas, porque estão dominadas pelo medo. Já outras, usam a negação para justificar atos inconsequentes.

ROSANA: É um tipo de reação ao medo, eu nego. Tem um perigo e eu o nego né. Mas aí quando eu nego eu não tomo os cuidados, então eu tô tirando do medo a sua única função útil, a única função útil do medo é ele me proteger, só fica muitas vezes, respostas mais maníacas, mais exageradas, então a gente tem visto festas, pessoas que parecem que estão em uma euforia, em uma alegria que você fala “do que que estão alegres?” quem pode estar tão alegre e ter tanta vontade de comemorar o quê? Por mais que você tenha tido sorte, a sua família não tenha perdido alguém, quem é capaz de tá muito feliz olhando ao redor e vendo quase 200 mil mortos, uma vacina que não se sabe quando vai chegar né, uma omissão das autoridades gritante, então assim, não é possível ser feliz nessas condições a não ser que seja uma reação meio maníaca, assim meio negadora.

ANA AUGUSTA: E talvez seja por isso que tem muita gente furando a quarentena, fazendo festas clandestinas e aglomerações desnecessárias. E o pior, elas não se sentem culpadas por isso. Isso tá estampado na quantidade de postagens nas redes sociais, mostrando festas e viagens. Uma enxurrada de fotos e vídeos de pessoas se divertindo em plena pandemia.

DEPOIMENTO 2: Eu sinto que sou um acúmulo sem válvula de escape e que, ao mesmo tempo que me sinto preenchido, não sei ao certo se tudo o que me transborda é necessariamente o que quero ou preciso.

As redes sociais me perturbam demais ultimamente. Acho tudo muito fútil, mas vira e mexe to rolando a tl do Twitter ou do Facebook.. Evito ao máximo abrir o Instagram porque tenho a sensação de que tudo ali é fake ou que eu to vivendo numa realidade paralela. E que tá tudo bem ali não ser real, sabe? Aí minha distração tem sido jogar, fico horas refugiado em mundos que, pelo menos, eu sei que não são reais. Porque eu sei que não tô 100% mentalmente. Eu reconheço que qualquer passo em falso pode me jogar no limbo da depressão de novo. E eu não quero isso. Tanto que se estou assistindo uma live, por exemplo, e começam assuntos pesados, como hate, visões estereotipadas, atritos… Eu saio, é uma escolha. Então, prefiro não consumir pra me manter equilibrado. Eu tô tentando não consumir atritos, sabe? Não consumir ignorância, não consumir tragédias.. Eu sei que é errado pq é a realidade, mas no momento eu não tenho outros assuntos e outras maneiras de aliviar essa carga negativa. Não sei se tô errado, mas eu tô fazendo o possível pra ficar bem.. Peguei o costume de todo final de semana arrumar meu quarto, deixar limpo, sabe? Acho que isso renova o ambiente.. De tentar não dormir a tarde pra manter uma rotina de sono, ver o dia.. Isso também tem me ajudado. Então assim, eu to tentando me cuidar, sabe? Porque o pouco que conquistei nos últimos meses, o pouco de estabilidade que conquistei, não quero perder.

ROSANA: Não tem um traço de cuidado né, de amorosidade, de compaixão, de empatia né, pelas pessoas que de fato tem que trabalhar, pelas pessoas por exemplo, da minha área da saúde estão esgotadas, as pessoas dos serviços de saúde estão exaustas né. Os governos têm dito que não tão conseguindo não vão conseguir agora na segunda reabrir leito porque não tem equipe. Conseguir o aparelho é fácil agora, o problema é conseguir equipe pra fazer aquilo funcionar, os seres humanos também que tem que trabalhar né.

ROBERTA BUENO: No começo da pandemia, os profissionais da saúde estavam sendo tratados como heróis. Teve até uma campanha chamada “Aplausos na Janela”, que foi convocada nas redes sociais pra homenagear quem tá na linha de frente do combate à covid.

ANA AUGUSTA: Hoje em dia, o esforço dessa classe parece não ser mais tão reconhecido. Pra Rosana, os profissionais da área médica vão ser os mais afetados mentalmente pela pandemia. Mas eles não serão os únicos. 

ROSANA: Tem colegas nossos trabalhando pela saúde do trabalhador com a saúde mental das pessoas que trabalham nos cemitérios. É um trabalhador que geralmente é muito pouco olhado né, e… é aquele pedaço do trabalho que a gente não gosta de ver né. As pessoas que ficaram é… na linha de frente por exemplo, da limpeza, da faxina, do lixo, morrendo de medo na hora de pegar as coisas sabendo que nem sempre todo mundo tem tido cuidado de condicionar os resíduos. Então assim, eu acho que a gente tem que prestar muita atenção aos trabalhadores menos qualificados porque eles têm sido menos protegidos né, e e e às vezes são os mais esquecidos né, e são… os trabalhadores do transporte público, que não puderam parar, em momento algum, e que fica num ambiente às vezes, enfim, mais cheio de gente do que deveria estar.

ROBERTA BUENO: Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, a FGV, com 613 agentes penitenciários espalhados pelo país mostrou a presença de profissionais despreparados e abalados emocionalmente para lidarem com a pandemia. 73% dos entrevistados relataram ter a saúde mental afetada neste cenário. 82% também informaram aumento de tensões e 87% conheceram algum colega que foi diagnosticado com a covid-19.

ANA AUGUSTA: E as demandas desses trabalhadores que sofreram e continuam sofrendo muito, nem sempre vão aparecer nos serviços de saúde mental… 

ROSANA: Algumas dessas questões vão aparecer nos serviços de atenção primária, vão aparecer nos cuidados, porque, se manifestam como exacerbações por exemplo de uma hipertensão, ou descontrole de um diabetes, uma dor inespecífica, ou transtornos do sono, ou transtorno de ansiedade mais leve que que acabam aparecendo na atenção primária porque são sintomas muito inespecíficos, então as pessoas nem sempre conseguem direcioná-las né para o campo da saúde mental, e aí haverá com com certeza uma sobrecarga da atenção primária e uma necessidade da atenção primária de tá também atenta e qualificada para poder fazer ou a assistência e o cuidado, ou o encaminhamento bem construído né, dessas pessoas.

DEPOIMENTO 3: Eu sou agente penitenciária e durante todo esse período da covid-19 foi bem complicado, tanto no meu trabalho quanto pessoalmente. No meu trabalho nem tanto com o contato com os apenados, porque eu trabalho numa penitenciária masculina, porque a gente não tem contato tão próximo com eles, mas sim com os colegas, porque nós tiramos plantão de 24 horas, então a gente tem contato ahn… durante a alimentação no refeitório, nos alojamentos que nós dormimos, então fica bem complicado não estabelecer um contato tão próximo. Logo no início a gente tava bastante assustado, toda a equipe, quando principalmente surgiu um primeiro caso suspeito entre os colegas, porque a gente não sabia como manejar isso ahn… quem teve contato com esse colega, aí isolaria todos os colegas daquele plantão? Isso ficaria bem complicado pro serviço, já que também não são muitos agentes né, mas aquele caso era, deu negativo né, não era covid. E eu, agora no final do ano, contraí a covid, acredito que também que tenha sido no meu trabalho porque, logo depois que eu contraí eu fiquei sabendo que outros colegas, na mesma época tavam apresentando sintomas, e… essa doença, na verdade, além dela debilitar o nosso físico, ahn eu entendo que ela debilita também o nosso psicológico, porque, quando eu descobri que eu tava com a covid, eu fiquei muito nervosa de ter passado para os meus pais, principalmente, que estão no grupo de risco, mas não só eles né, mas todas as pessoas ali que eu convivi nos dias antes de eu ter certeza que eu estava né, depois do diagnóstico, então eu fiquei muito muito nervosa mesmo, porque eu não queria prejudicar ninguém. E a gente acaba sentindo uma culpa, como se de fato nós fossemos culpados por transmitir o vírus, e isso que eu, ahn, não fiz nenhuma aglomeração, não fiz festa no final de ano, durante todo esse ano eu só trabalhei mesmo porque, como meu trabalho é essencial digamos, é, segurança pública, ahn a gente não pode parar né, então eu não pude parar mesmo de trabalhar, mas só aí com certeza eu já tava me expondo bastante né. E não só quanto tu contrai a doença, mas sim durante todo o tempo né, que fica aquela angústia de será que eu vou pegar, será que eu não vou pegar? eu tô com sintoma, será que eu peguei? e bah, eu peguei e eu tava com fulano e fulano, meu deus, e se eu passei pras pessoas? 

ROBERTA BUENO: Independentemente da profissão, todos nós estamos sentindo ou vamos sentir os impactos da pandemia na nossa saúde mental. Mas também é fato que ela trouxe à tona as desigualdades que vivemos no nosso país, de classe social, de gênero, de cor. Os mais vulneráveis, novamente, são os que sofrem mais. 

ANA AUGUSTA: E como sociedade, precisaremos buscar maneiras que nos ajudem a curar todas as feridas que esse período nos deixou.

ROSANA: Eu tenho pessoalmente insistido muito também, que nesse processo todo ter a articulação da saúde com a cultura. Em que sentido eu tô dizendo isso, é que acho que nem todas essas, esses é… reações que a gente vai ter precisarão necessariamente de tratamentos clínicos, ou de remédios, ou de intervenções clínicas mais específicas, mas sim precisarão de espaços de elaboração. Então nós vamos ter que poder criar muitos espaços culturais, no sentido não de entretenimento né, não no sentido assim de uma cultura que eu digo, só da diversão, mas de espaços de elaboração, das pessoas poderem escrever, ler poesia, ver filmes, é, ter rodas de conversa, rodas de samba, o que seja, que permita que cada um de acordo a sua é… ao que lhe agrada mais em termos culturais e a suas, a suas origens, é, possa ter algum espaço do, onde junto com outras pessoas possa elaborar esse período tão tão tenebroso que a gente tá vivendo. 

ROBERTA BUENO: Esse foi o quarto episódio do Casa de Orates. Ele foi apresentado por mim, Roberta Bueno, e pela Ana Augusta Xavier. Nós também participamos da produção, junto com o Rafael Revadam. 

ANA AUGUSTA: As músicas usadas neste programa são da YouTube Audio Library e as sonoras dos telejornais são das emissoras TV Brasil, Record e Bandnews, e foram retiradas de seus canais no YouTube. A revisão do roteiro e a coordenação são da professora Simone Pallone, do Labjor/Unicamp, e os trabalhos técnicos de Rafael Revadam e Gustavo Campos. 

ROBERTA BUENO: Este episódio teve depoimentos de amigos e familiares, que contaram um pouco do que viveram durante a pandemia. O jornalista Renan Oliveira fez a locução do segundo depoimento e os demais foram narrados pelos próprios personagens. Também falamos de serviços de escuta e acolhimento psicológico. Os links estão na descrição do programa.

ANA AUGUSTA: Você também pode nos acompanhar nas redes sociais. Estamos no Facebook, (facebook.com/oxigenionoticias – tudo junto e sem acento). E no Instagram e no Twitter, basta procurar por “Oxigênio Podcast”.

ROBERTA BUENO: Você pode deixar a sua opinião sobre este episódio comentando na plataforma de streaming que utiliza. Até a próxima!

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